Obra: O Cortiço
Autor: Aluísio de Azevedo
Gênero: romance
Escola literária: Realista/Naturalista
RESUMO:
“O cortiço” é composto por 23 capítulos, numerados
em romanos, sem títulos disponíveis.
“O
CORTIÇO”
I
“João Romão foi, dos treze aos vinte cinco anos,
empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e
obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco
que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe
deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava
dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.”
João Romão trabalhou duro e perseverante;
economizou e passou duras privações. Seu objetivo único era enriquecer e todas
as suas atitudes direcionavam a esse empenho.
“Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de
uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida
arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha,
a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de
Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na
cidade.”
Bertoleza também trabalhava pesado dia e noite e
pagava a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha quase o
montante para comprar sua alforria. Um dia, o seu companheiro depois de puxar
uma carga superior às suas forças, caiu “morto na rua, ao lado da carroça,
estrompado como uma besta.”
João Romão mostrou grande interesse por esta
desgraça e aproximou-se de Bertoleza. A crioula confiou em João Romão e
contou-lhe a sua vida de aflições e dificuldades. Em seguida, “segredou-lhe
então o que tinha juntado para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que
lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fora roubada por gatunos que
lhe entraram na quitanda pelos fundos.”
João Romão passou a ser o caixa, o procurador e o
conselheiro de Bertoleza. Era ele quem administrava todas as suas economias e
quem se encarregava de pagar ao “velho cego” a dívida mensal. Abriu-lhe uma
conta corrente e quando a quitandeira necessitada de dinheiro pedia ao “Seu
João” e ele debitava de um caderno em cuja capa de papel pardo lia-se mal
escrito e em letras cortadas de jornal: “Ativo e passivo de Bertoleza”.
Bertoleza confiava plenamente em João Romão e
quando “deram fé estavam amigados”.
João Romão propôs morarem juntos e ela aceitou de
prontidão, porque, “como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a
negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua.”
O português comprou um terreno ao lado da venda com
as economias da amásia e construiu uma casinha dividida entre duas partes: a
parte da frente destinada à quitanda e nos fundos, um dormitório que ele
ajeitou com os cacarecos de Bertoleza.
O vendeiro prometeu que a vida dela ia melhorar e
que ela estaria livre em pouco tempo, “eu entro com o que falta.”
Uma semana depois, João Romão voltou com uma folha
de papel toda escrita, dizendo:
“– Você agora não tem mais senhor! Declarou em
seguida à leitura, que ela ouviu entre lágrimas agradecidas.”
Entretanto, a carta de liberdade era falsa, era
obra do próprio João Romão, que nem sequer teve despesas de comprar um selo
novo utilizando um selo já usado em outro documento.
“O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento
do fato; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a
Bahia depois da morte do amigo.”
João Romão, por sua vez, só ficou tranquilo quando
soube três meses depois sobre a morte do velho. É certo que, com a morte do
velho, os herdeiros desses tinham poder sobre a escrava: “dois pândegos de
marca maior que, empolgada a legítima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na
pista de uma crioula a quem não viam de muitos anos àquela parte.”
Bertoleza trabalhava sem descanso, cuidando da
casa, da venda e da quitanda: limpava, costurava, vendia, cozinhava....Não
havia descanso e nem passeios. Depois de um ano morando juntos, João Romão
adquiriu num leilão algumas braças de terra situado ao fundo da taverna e sem
perda de tempo, ergueu três casinhas.
“Que milagres de esperteza e de economia não
realizou ele nessa construção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro,
quebrava pedra; pedra que o velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtavam
à pedreira do fundo, da mesma forma que subtraíam o material das casas em obra
que havia por ali perto. (...) Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos
pedreiros, os cavalos de pau, o banco ou a ferramenta dos marceneiros”
Essas três casinhas foram o começo de um grande
cortiço que ali se fixou. O vendeiro “ia conquistando todo o terreno que se
estendia pelos fundos da sua bodega; e, à proporção que o conquistava,
reproduziam-se os quartos e o número de moradores.”
“Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia
santo, não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de
pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os
fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel
coado o que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez
mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e
mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa
parte da bela pedreira, que ele, todos os dias, ao cair da tarde, assentado um
instante à porta da venda, contemplava de longe com um resignado olhar de
cobiça.”
João Romão contratou alguns homens para trabalharem
na pedreira e seu lucro dobrou.
Nessa época, um negociante português, estabelecido
na Rua do Hospício com uma loja de tecidos por atacado, Sr. Miranda, sua esposa
Dona Estela e sua filha, Zulmira, compraram o sobrado que ficava ao lado da
venda do Sr. Romão. Sr. Miranda contava que Dona Estela não suportava
mais viver no centro da cidade e que sua filha Zulmira, precisa de espaço para
crescer. Mas, a verdade é que ele queria afastar Dona Estela dos seus
caixeiros.
“Dona Estela era uma mulherzinha levada da breca:
achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda
sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o
Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério (...)”
Não se separou. Afinal, ela era rica e além de que,
“um rompimento brusco seria obra para
escândalo, e, segundo a sua opinião qualquer escândalo doméstico ficava muito
mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição
social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem
coragem para recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas
regalias e afeito à hombridade de português que já não tem pátria na Europa.”
Passaram a dormir separados, não comiam juntos e
quase não conversavam. Odiavam-se e a situação agravou-se com o nascimento de
Zulmira.
“Estela amava-a menos do que lhe pedia o instinto
materno por supô-la filha do marido, e este a detestava porque tinha convicção
de não ser seu pai.”
Uma noite, Miranda sentiu desejo incontido foi até
o quarto de Estela.
“Estela, como se o olhar do marido lhe apalpasse o
corpo, torceu-se sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol
para a frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda não
pode resistir, atirou-se contra ela, que, num pequeno sobressalto, mais de surpresa
que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando com o marido. E
deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados, fingindo que continuava a
dormir, sem a menor consciência de tudo aquilo.”
No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em
silêncio, como se nada tivesse acontecido entre eles na noite anterior. Depois
de um mês, Miranda, acometido de um novo acesso de luxúria, voltou ao quarto da
mulher.
“Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim
tão violenta no prazer. (...) Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos
cabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito, outro som nos
gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delírio com
verdadeira satisfação de animal no cio. E ela também, ela também gozou,
estimulada por aquela circunstância picante do ressentimento que os desunia;
gozou a desonestidade daquele ato que a ambos acanalhava aos olhos um do outro;
estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo daquele seu inimigo
odiado, achando-o também agora, como homem, melhor que nunca, sufocando-o nos
seus braços nus, metendo-lhe pela boca a língua úmida e em brasa. Depois, um
arranco de corpo inteiro, com um soluço gutural e estrangulado, arquejante e
convulsa, estatelou-se num abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o
lado, os olhos moribundos e chorosos, toda ela agonizante, como se a tivessem
crucificado na cama.”
Viveram anos muito bem casados; mas, agora que o
Miranda já não tinha tantas crises que o levavam ao quarto de Estela, ela
passou a dar corda aos caixeiros do marido.
O sobrado era bom, faltava-lhe um pouco de quintal.
Miranda procurou João Romão para negociar algumas braças daquele terreno do
fundo que ia até a pedreira.
Discutiram e João Romão afirmou que queria comprar
o pequeno quintal de Miranda. A partir daí, travou-se uma rixa entre Miranda e
João Romão: Sr Miranda não fazia o muro do seu quintal e João Romão esperançava
em adquirir aquele terreno e construir uma estalagem.
Romão passou a frequentar leilões de materiais de
construções e adquiriu um arsenal de materiais de segunda mão e usados que
misturava com aqueles outros, roubados.
Uma noite João Romão conversava na cama com
Bertoleza:
“– Deixa estar que ainda lhe hei de entrar pelos
fundos da casa, se é que não lhe entre pela frente! Mais cedo ou mais tarde
como-lhe, não duas braças, mais seis, oito, todo o quintal e até o próprio
sobrado talvez!”
João Romão visava só aumentar seus bens. Recolhia
para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que ninguém compraria;
vendia todos os ovos que suas galinhas produziam e alimentava-se dos restos da
comida dos trabalhadores.
“E seu tipo baixote, socado, de cabelos à
escovinha, a barba sempre por fazer (...).”
Os seus negócios iam bem. O bairro povoava-se e
expandia-se rapidamente e a maioria dos trabalhadores da região comia à Casa de
pasto que João Romão arranjara aos fundos da sua varanda e frequentavam à sua
taverna. Passou adquirir mercadorias da Europa: o vinho que vinha agora de
Portugal às pipas, de cada uma fazia três acrescentando-lhes água e cachaça e
despachava faturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caixões de
fósforos, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias.
De uma simples taverna transformou-a num grande
bazar; criou depósito; aboliu a quitanda e transferiu o dormitório.
“Por ali não se encontrava jornaleiro (operário),
cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco.”
Emprestava-lhes dinheiro e cobrava juros de 8% ao
mês, um pouco mais que os penhores.
As casinhas do cortiço enchiam-se, logo. Os
empregados da pedreira davam preferência morar perto do trabalho.
Miranda ficava furioso: o cortiço desvalorizava o
seu sobrado. Enfim, Miranda mandou levantar o muro.
Romão mandou colocar uma tabuleta na frente:
“Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras”.
As casinhas eram alugadas por mês, num total de 95
casinhas e as tinas por dia; tudo pago adiantado. As moradoras do cortiço
tinham direito a lavar sem pagar.
“Graças à abundância da água que lá havia, como em
nenhuma outra parte, e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço
para estender a roupa, a concorrência às tinas não se fez esperar; acudiram
lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre elas algumas vindas de bem
longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse um
colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputá-los.”
“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela
umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um
mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo,
daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”
II
Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para
dia e isso, irritava Sr. Miranda que se remoia a pensar que: “aquele tipo! Um
miserável, um sujo, que não pusera nunca um paletó, e que vivia de cama e mesa
com uma negra!”
“(...) Tinha inveja do outro, daquele outro
português que fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro
que, para ser mais rico três vezes do que ele, não teve de casar com a filha do
patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro freguês da casa!”
“(...) Miranda, que se supunha a última expressão
da ladinagem e da esperteza (...) ele, que se tinha na conta de invencível
matreiro, não passava afinal de um pedaço de asno comparado com o seu vizinho!”
“(...) No fim de contas qual fora a sua África?”
Quanto à Zulmira, “Miranda nem sequer gozava o
prazer de ser pai e a pobre criança nada mais representava que o documento vivo
do ludíbrio materno, e o Miranda estendia até a inocentezinha o ódio que
sustentava contra a esposa.”(...) Feliz e esperto era o João Romão! (...) esse,
sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque quando mesmo viesse a casar
e a mulher lhe saísse uma outra Estela era só mandá-la para o diabo com um
pontapé! Podia fazê-lo! Para esse é que era o Brasil!”
Esses pensamentos levaram Miranda a um novo ideal:
um título. Lembrou-se de que Estela é que possuía sangue nobre e, que ele, por
sua vez, se não o tinha herdado, trouxera-o por natureza própria, o que devia
valer mais ainda; e desde então principiou a sonhar com um título de barão;
seria um empreendimento que ninguém lhe tomaria e um dinheiro de sua esposa,
que ele empregaria.
Mudou seus comportamentos e passou a cumprimentar o
seu vizinho. Depois, abriu a sua casa e deu uma festa.
Zulmira tinha “doze para treze anos e era o tipo
acabado da fluminense; pálida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas
mucosas do nariz, das pálpebras e dos lábios, faces levemente pintalgadas de
sardas. Respirava o tom úmido das flores noturnas, uma brancura fria de
magnólia; cabelos castanho-claros, mãos quase transparentes, unhas moles e
curtas, como as da mãe, dentes pouco mais claros do que a cútis do rosto, pés
pequeninos, quadril estreito mas os olhos grandes, negros, vivos e maliciosos.”
Nessa época chegou de Minas, Henriquinho, garoto de
15 anos que veio fazer preparatórios para o curso de Medicina e ficará
hospedado no sobrado. Era o filho de um fazendeiro importante que dava lucros à
casa comercial de Miranda.
Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com
umas delicadezas de menina. Era estudioso e bem econômico. Estela demonstrou
carinho quase maternal pelo garoto e passou a tomar conta da sua mesada. Às
vezes, Henrique passeava com Estela, Zulmira e um moleque, o Valentim e acompanhava-as
às festas em casa das amigas.
A criadagem da casa de Miranda era composta por:
Isaura (mulata ainda moça, moleirona e tola), Leonor (negrinha virgem, muito
ligeira e viva, lisa e seca como um moleque, conhecedora da vasta tecnologia da
obscenidade) e Valentim (filho de uma escrava que foi de Estela e a quem esta
havia alforriado, era protegido de Estela).
Além de Henriquinho, havia outro hóspede, o velho
Botelho. Era um pobre-diabo, quase 70 anos, antipático, cabelo branco, curto e
duro, como escova, barba e bigode do mesmo teor, muito amarelento, com uns
óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho da pupila e davam-lhe à cara uma
expressão de abutre, perfeitamente de acordo com o seu nariz curvo e com a sua
boca sem lábios. Viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que
pareciam desgastados até ao meio.
“Andava sempre de preto, com um guarda-chuva
debaixo do braço e um chapéu Braga enterrado nas orelhas. Fora em seu tempo
empregado do comércio, depois corretor de escravos; contava mesmo que estivera
mais de uma vez na África negociando negros por sua conta. Atirou-se muito às
especulações; durante a guerra do Paraguai ainda ganhara forte, chegando a ser
bem rico; mas a roda desandou e, de malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo
por entre as suas garras de ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido
de desilusões, cheio de hemorróidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava
a sombra do Miranda, com quem por muitos anos trabalhou em rapaz, sob as ordens
do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a princípio por acaso e mais
tarde por necessidade.”
Botelho vivia criticando as ideias da época;
principalmente, quando a discussão era o movimento abolicionista que
principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco.
“E, para individualizar o objeto do seu ódio,
voltava-se contra o Brasil, essa terra que, na sua opinião, só tinha uma
serventia: enriquecer os portugueses, e que, no entanto, o deixara, a ele, na
penúria.”
A sua paixão era o militarismo, comovia-se com a
presença de um oficial fardado e quando ouvia tocar na rua a corneta ou o
tambor conduzindo um batalhão, quando dava por si, fazia parte dos que
acompanhavam a tropa. Irritava-se com os mimos dispensados ao Valentim e
conhecia todas as falhas de Estela, pois era confidente de Miranda e concordava
que os sérios interesses comerciais estavam acima de tudo.
“– Uma mulher naquelas condições, dizia ele
convicto, representa nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a
gente despreza! Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ela...
- Ora! Explicava o marido. Eu me sirvo dela como
quem se serve de uma escarradeira!”
Mas por outro lado, quando ouvia Estela reclamar do
marido, resplandecia de contente. Dizia, ela:
“– Desgraçadamente para nós, mulheres de
sociedade, não podemos viver sem esposo, quando somos casadas; de forma que
tenho de aturar o que me caiu em sorte, quer goste dele quer não goste!
Juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se chegue às vezes para mim, é
porque entendo que paga mais à pena ceder do que puxar discussão com uma besta
daquela ordem!”
Botelho mantinha-se fiel aos dois. Um dia
surpreendeu “Estela entalada entre o muro e o Henrique” e disse:
“– Isso é uma imprudência o que vocês estão
fazendo!...Estas coisas não é deste modo que se arranjam! Assim como fui eu,
podia ser outra pessoa...(...) Se vi, creia, foi como se nada visse, porque
nada tenho a cheirar com a vida de cada um!...A senhora está moça, está na
força dos anos; seu marido não a satisfaz, é justo que o substitua por outro!
Ah!isto é o mundo, e, se é torto, não fomos nós que o fizemos torto!...Até
certa idade todos temos dentro um bichinho-carpinteiro, que é preciso matar,
antes que ele nos mate!”
Depois, Botelho aproximou-se de Henrique e
segredou-lhe em tom protetor:
“– Não torne a fazer isto assim, que você se
estraga...Olhe como lhe tremem as pernas! [...] Só abrirei o bico se você me
der motivo para isso...não se meta com donzelas, entende?...São o diabo! Por dá
cá aquela palha fica um homem em apuros! Agora quanto às outras, papo com
elas!”
E acrescentou:
“– Fique então sabendo de que não é só a ela que
você faz o obséquio, mas também ao marido: quanto mais escovar-lhe você a
mulher, melhor ela ficará de gênio, e por conseguinte melhor será para o pobre
homem, coitado! Que tem já bastante que se aborrecer lá por baixo, com os seus
negócios, e precisa de um pouco de descanso quando volta do serviço e mete-se
em casa! E creia que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho
simpático, porque o acho bonito!. Em seguida, acarinhou-o e Henrique
fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo.”
III
“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava,
abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. [...]
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos
bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a
parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia,
suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras
palavras, os bons-dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite; a
pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das casas vinham choro abafados de
crianças que ainda não andam...[...] Daí a pouco, em volta das bicas era um
zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após
outros, lavavam a cara incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da
altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender
as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos
braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do
casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário
metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as
barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não
descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem
tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as
saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo,
no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.”
O dia começava já “sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa [cheia de força] de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.”
Das janelas do sobrado do Miranda apareceu a
Isaura, começando a limpeza da casa e, em seguida, a Leonor. E o trabalho
principiava: o padeiro apareceu na estalagem; a fábrica de massas italianas
engrossou o barulho com o seu arfar monótono de máquina a vapor; algumas
lavadeiras começaram a lavar; mercadores ofereciam carne fresca e outros de
tripas e fatos de boi; os mascates com suas quinquilharias; o sardinheiro e o
carroção de lixo, e, de longe rompiam os fados portugueses e as modinhas
brasileiras Leandra, conhecida por “Machona”, foi a primeira que se pôs a
lavar. Era uma portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de
animal do campo. Tinha três filhas: uma filha casada e separada do marido, Ana
das Dores, a “das Dores”; outra uma donzela ainda, a Neném e um filho, o
Agostinho, menino levado dos diabos. Somente a “das Dores” não morava no
cortiço. Ninguém sabia sobre o passado da Machona e seus filhos não se pareciam
uns com os outros.
Neném, 17 anos, espigada, franzina, forte e virgem.
Boa engomadeira e sabia fazer roupa branca de homem com muita perfeição.
Em seguida, chegou a Augusta Carne-Mole,
brasileira, branca, mulher do soldado Alexandre, um mulato de 40 anos, soldado
de polícia, pedante, de grande bigode preto, queixo sempre barbeado, um luxo de
calças brancas engomadas e botões limpos na farda, quando estava de serviço.
Quando estava de descanso, ele era sociável, mas quando vestia o uniforme
ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava com autoridade. Tinham
filhos pequenos e um deles, a Juju, vivia com a madrinha Léonie, francesa e
prostituta.
Junto dela pôs-se a trabalhar a Leocádia, mulher de
um ferreiro chamado Bruno, portuguesa pequena, de carnes duras, com fama de
leviana.
Seguia-se a Paula, conhecida por “Bruxa”. Era uma
cabocla velha, meio idiota, feiticeira, extremamente feia, grossa, triste, de
dentes cortados à navalha e cabelos lisos e escorridos. Também, a Marciana,
mulata séria e muito asseada que quando estava com raiva punha-se a limpar a
casa e se a raiva fosse muito grande, lavada o chão da sala com muita fúria,
por isso a casa estava sempre úmida. E sua filha Florinda de 15 anos, pele de
um moreno quente, beiços sensuais, bonitos dentes e olhos luxuriosos de macaca.
Para elas, o vendeiro fazia pequenas concessões nas compras e não roubava no
preço das mercadorias. Florinda era virgem e, embora “toda ela estava a pedir
homem”, não cedia às investidas de João Romão.
Em seguida, via-se a Dona Isabel, uma pobre mulher
comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma casa de chapéus, que quebrou
e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e fraca, a quem Isabel
sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até de francês.
“Tinha uma cara macilenta de velha portuguesa
devota, que já foi gorda, bochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe
pendiam dos cantos da boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos
castanhos, sempre chorosos engolidos pelas pálpebras.”
Vestia-se sempre de preto e a única herança que lhe
restara era uma caixa de rapé de ouro. Sua filha, a Pombinha, era a “Flor do
cortiço”. Era bonita, loira, muito pálida, nervosa, enfermiça e com modos de
menina de boa família. Tinha um noivo, João da Costa, moço do comércio,
estimado do patrão e dos colegas, com muito futuro.
O casamento ainda não se realizara porque Pombinha
aos seus 18 anos de idade “não tinha ainda pago à natureza o cruento tributo da
puberdade” [menstruação], daquele casamento dependia a felicidade de ambas,
afinal o Costa era bem empregado e podia restituí-las ao seu antigo círculo
social. A mãe rezava todas as noites pedindo essa graça a Deus, mas nunca
consentiria que sua mulher casasse antes de “ser mulher”.
No cortiço essa história era conhecida por todos e
todos davam conselhos e cumprimentavam o Costa com ares de piedade por essa má
sorte.
Pombinha era muito querida no cortiço: escrevia as
cartas, lia o jornal, tirava as contas e fazia a lista para as lavadeiras.
O próximo era o Albino: sujeito afeminado, fraco,
cabelos castanhos, deslavado e pobre que lhe caía, numa só linha, até ao
pescoço mole e fino. Vivia entre as mulheres e estas o tratavam como se fosse
do mesmo sexo; faziam-lhe confidências que não fariam a um homem. Era sempre
ele que reconciliava uma briga de casal ou entre mulheres. Guardava dinheiro o
ano todo e no carnaval, fantasiava-se de dançarina e ia passear pelas ruas e
dançar nos bailes dos teatros. Vivia sempre asseado, não fumava, bebia
espíritos e trazia sempre as mãos geladas e úmidas.
Enquanto as lavadeiras faziam seus serviços, por
uma porta que havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da
pedreira.
Surge um rapaz que vem perguntar sobre o paradeiro
de Rita Baiana. As lavadeiras discutem sobre a vida de Rita Baiana: Leocádia
acredita que ela deve estar de folia com o Firmo; Augusta acha que é uma
irresponsável, afinal com tanta roupa para lavar e ficar na vadiagem, ”parece
que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que houver, aparecendo pagode, vai
tudo pro lado”
Quando davam nove horas o movimento da venda
duplicava. Os operários das fábricas chegavam para o almoço e Bertoleza ia e
vinha de uma panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira
aos trabalhadores. O cheiro do azeite predominava; o parati circulava por todas
as mesas; discutia-se a berros e depois “daquela comezaina grossa, iam
radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar”.
Um português de seus trinta e cinco anos a quarenta
anos, alto, de ombros largos, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados
caindo-lhe sobre a testa, pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos
humildes com os olhos de um boi de canga [submisso] exprimiam bondade surge
para conversar com João Romão.
IV
Tratava-se de Jerônimo e foi indicado por Machucas
para trabalhar na pedreira de João Romão. Jerônimo pede 70 mil réis e João
Romão diz que esse ordenado é impossível pagar. Jerônimo alega que vale a pena
pagar um pouco mais a um trabalhador bom a correr riscos como já havia
acontecido na pedreira de João.
João Romão acompanha Jerônimo até a pedreira e no
caminho passam pelas lavadeiras que já tinham almoçado e retornado aos seus
afazeres. Ao encontrarem Florinda, João aproveita de dá-lhe uma palmada nas
nádegas. Na pedreira encontravam-se trabalhadores por toda a parte, uns ao sol,
outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira.
Jerônimo critica a maneira que estão lidando com a pedra e apresenta argumentos
técnicos que com certeza, João Romão tiraria mais lucros, inclusive dispensando
alguns trabalhadores que não executavam seus serviços corretamente e
substituindo-os por bons trabalhadores.
João Romão contratou Jerônimo nas condições dele se
mudar para o cortiço e fazer as suas compras na venda. E pensou lá de si para
si: “Os meus setenta mil réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa!”
V
No dia seguinte Jerônimo e sua esposa Piedade de
Jesus mudaram para o cortiço. Piedade aparentava trinta e cincos anos, boa
estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes
poucos alvos, mas sólidos e perfeitos, cara cheia, fisionomia aberta; um todo
de bonomia toleirona [boa e boba], de uma simpática expressão de honestidade
simples e natural. Chegaram ambos à boléia da andorinha [carro de mudança] e
enquanto descarregavam seus pertences eram acompanhados por comentários e
olhares curiosos dos moradores.
Jerônimo viera de Portugal com a esposa e uma filha
pequena tentar a vida no Brasil. Trabalhou por dois anos numa fazenda e “se
retirou de mãos vazias e uma grande birra pela lavoura brasileira. Para
continuar a servir na roça tinha que sujeitar-se a emparelhar com os negros
escravos e viver com eles no mesmo meio degradante encurralado como uma besta,
sem aspirações, nem futuro, trabalhando eternamente para o outro.”
Em poucos meses se apoderava do seu novo ofício: o
de quebrador de pedras e ganhou confiança de seu novo patrão. A vida ia bem,
colocou sua filha numa escola e sua casinha era a mais respeitada e decente do
lugar. Mas, o patrão morreu e os herdeiros fizeram uma reforma na pedreira que
desgostou Jerônimo. Jerônimo, então foi procurar João Romão.
João Romão estava contente com o desempenho de
Jerônimo. Com o seu exemplo os companheiros tornaram-se mais sérios e zelosos.
No fim de dois meses João Romão vibrava com a contratação de Jerônimo.
Jerônimo também ganhou a amizade e a confiança dos
moradores do cortiço. Era visto como superior e procurado como confidente e
conselheiro. Trabalhava o dia inteiro e só voltava à casa ao cair à tarde,
faminto e cansado. Piedade preparava uma comida típica da terra deles e depois
ficavam em paz conversando sobre o futuro de Marianita que estava no colégio e
que só os visitava aos domingos e dias santos. Depois, tocava na sua guitarra,
os fados de sua terra, transparecendo claramente as saudades de sua pátria.
VI
Domingo no cortiço...as tinas abandonadas; as
casinhas fumegando um cheiro bom de refogados de carne fresca; alguém
declamando os versos de “Os Lusíadas”, outros lendo jornais; na venda
trabalhadores bebendo vinho e cervejas e todos de roupa mudada depois de uma
semana no corpo.
Nesse momento, aparece Rita Baiana que estava
ausente há meses, durante a qual só dera notícias suas nas ocasiões de pagar o
aluguel do cômodo. Todos correm ao seu encontro querendo saber notícias.
“Não vinha em traje de domingo; trazia casaquinho
branco, uma saia que lhe deixava ver o pé sem meia num chinelo de polimento com
enfeites de marroquim de diversas cores. No seu farto cabelo, crespo e
reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um pedaço de
baunilha e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta,
saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para
a esquerda, pondo à mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam
a sua fisionomia com um realce fascinador.”
Contou que estava em Jacarepaguá com o Firmo e que
agora o namoro era sério. Leocádia pergunta-lhe por que ela não casa com o
Firmo?
“– Casar? Protestou a Rita. Nessa não cai a filha
de meu pai! Casar? Livra! Para quê? Para arranjar cativeiro? Um marido é pior
que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! Qual! Deus te livre! Não
há como viver cada um senhor e dono do que é seu!”
Falava a todos e para cada um tinha um comentário,
um riso ou um carinho. Inclusive, para com o velho Libório, seco que parecia
mumificado pela idade.
Para maior alegria dos moradores, Rita Baiana avisa
que à noite teriam pagode. Depois, pergunta quem eram “aqueles jururus que
estão agora no 35”
VII
Às três da tarde, chegou o Firmo acompanhado pelo
seu amigo Porfírio, trazendo violão e cavaquinho.
Firmo era um mulato pachola [cheio de si], delgado
de corpo e ágil como um cabrito; capadócio [trapaceiro] de marca, pernóstico;
só de maçadas, e todo ele se quebrando nos seus movimentos de capoeira. Teria
seus trinta e tantos anos, mas não parecia ter mais de vinte e poucos. Pernas e
braços finos, pescoço estreito, porém forte; não tinha músculos, tinha nervos.
A respeito de barba, nada mais que um bigodinho crespo, petulante, onde reluzia
cheirosa a brilhantina do barbeiro; grande cabeleira encaracolada negra,
dividida ao meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grandes
gaforina [topete] por debaixo da aba do chapéu de palha, que ele punha de
banda, derreado sobre a orelha esquerda. Vestia, como de costume, um paletó de
lustrina preta já bastante usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas
na bainha que lhe engoliam os pezinhos secos e ligeiros. Não trazia gravata,
nem colete, sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o
colarinho, um lenço alvo e perfumado; à boca um enorme charuto e na mão um
grosso porrete de Petrópolis. Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio;
ganhava uma semana para gastar num dia; às vezes, porém, os dados ou a roleta
multiplicavam-lhe o dinheiro, e então ele fazia como naqueles últimos três
meses: afogava-se numa boa pândega com a Rita Baiana ou com outra. Era carioca,
militara dos 12 aos 20 anos em diversas maltas de capoeiras, ajudara a decidir
eleições nos tempos do voto indireto e buscava um lugar de contínuo numa
repartição pública e receber setenta mil réis mensais pelo trabalho das nove às
três.
Firmo conheceu Rita Baiana assim que ela chegou da
Bahia junto com a mãe. Logo, a mãe morreu e Firmo cuidou de Rita Baiana.
Apaixonou-se por ela, mas por causa de ciúmes acabaram se separando, e ela,
apesar de volúvel como toda mestiça, não o esquecia e acaba reatando o seu
namoro.
E não tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho e o
violão. Defronte da porta de Rita surgiam diversos moradores do cortiço,
jornaleiros de baixo salário, gente miserável, que mal podia matar a fome com o
que ganhava. Ainda assim não havia entre eles um só triste. Até Libório
apareceu com a cara esfomeada. Rita convidou-o para entrar e deu-lhe de comer e
de beber. O velho avarento comeu até engasgar com um pedaço de carne e vomitar
sobre a mesa. Albino, por sua vez, não comia nada, tudo lhe fazia mal. Rita
disse-lhe que esses sintomas eram semelhantes à
gravidez.
Do sobrado do Miranda também vinha muitos barulhos.
Saía de lá gritarias de hurras e desarrolhar de champanhes.
Leocádia vira Dona Estela e Henrique agarrados... Nisso,
escutam uns versos saudosos acompanhados por uma guitarra da porta do 35:
“Minha vida tem desgostos,/Que só eu sei
compreender.../Quando me lembro da terra/Parece que vou morrer.../Terra minha,
que te adoro,/Quando é que eu te torno a ver?/Leva-me deste desterro;/Basta já
de padecer.”
A tristeza daqueles versos começou a abater os
ouvintes, mas a música crioula retomou a alegria, “eram lúbricos [sensuais]
gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras
numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor;
música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer,
fazendo estalar de gozo.”
Jerônimo e Piedade aproximaram-se da roda e
observam Rita dançando “feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de
serpente e muito de mulher [...] rebolando as ilhargas [ancas] e bamboleando a
cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo
carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga
empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse
afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se
encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado,
estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca
parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente,
erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca,
enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, titilando.”
Jerônimo via naquela mulata a “síntese das
impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia;
ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e
das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e
esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar
gostoso; era o sapoti [fruto doce] mais doce que o mel e era a castanha do
caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e
traiçoeira, a lagarta viscosa [pegajosa], a muriçoca [mosquito] doida, que
esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos,
acordando-lhe as fibras embambecidas [moles] pela saudade da terra, picando-lhe
as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor
setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva
daquela nuvem de cantáridas [insetos usados pela medicina como afrodisíaco] que
zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência
afrodisíaca.”
Piedade se retirou e Jerônimo não deu pelas horas,
já pela madrugada viu a Rita sendo levada para o quarto pelo seu homem e ficou
sozinho no meio da estalagem e sentiu “formar um ninho de cobras negras e
venenosas, que lhe iam devorar o coração”.
VIII
No dia seguinte Jerônimo voltou na hora do almoço e
caiu de cama. Pediu para Piedade avisar João Romão que não trabalharia mais
naquele dia. A notícia espalhou-se e depois de receber muitas visitas e
expulsá-las, apareceu Rita Baiana. Jerônimo ao vê-la, sorriu.
Rita ofereceu-se fazer uma xícara de café bem forte
com um gole de parati (cachaça) para curar o português.
Piedade voltou preocupada com o estado de saúde do
marido e ele trata-a agressivamente, negando tomar o chá, o escalda-pés e
dispensando o seu carinho. A esposa dedicada acreditou que fosse por causa da
doença. Jerônimo secamente manda que Piedade volte para a tina, lavar as
roupas.
“Ela ia retirar-se, como um animal enxotado, quando
deu com a Rita, que entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a
fumegante palangana de café com parati e no ombro um cobertor grosso para dar
um suadouro ao doente.”
A portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no
íntimo, ressentida contra aquela invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu
homem. Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o
instinto, o faro sutil e desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente
o seu ninho exposto.
Rita retornou ao quarto do doente. Jerônimo passou
o braço em sua cintura e procurou com a mão direita segurar a dela, queria
agradecer-lhe, mas um desejo ardente dominou o seu corpo.
Nesse momento, ocorreu um escândalo no pátio da
estalagem. Henrique que, da janela do sobrado gesticulava-se eroticamente à
Leocádia, naquele dia excedeu-se: mostrou-lhe um coelhinho que ela cobiçou. E,
através da mímica, declarou com um gesto a condição para a aquisição do coelho.
“Ela meneou a cabeça afirmativamente, e ele fez-lhe
sinal de que a esperasse por detrás do cortiço, no capinzal dos fundos. [...]
Leocádia olhou para os lados, assegurando-se de que estavam a sós. Henrique,
sem largar o coelho, atirou-se sobre ela, que o conteve.
- Espera! Preciso tirar a saia; está encharcada!
- Não faz mal! Segredou ele, impaciente no seu
desejo.
- Pode-me vir um corrimento!”
Leocádia lançou-se de costas ao chão com as coxas
abertas e o estudante atirou-se, sentindo-lhe à frescura da carne da lavadeira,
mas sem largar as pernas do coelho. A lavadeira pede-lhe que faça um filho,
para que ela pudesse alugar-se de ama de leite, pois estavam pagando muito bem.
Enquanto, pedia para que o estudante fosse mais devagar, pois podia matar o
bichinho.
“Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudiu-lhe o
espasmo e ela fechou os olhos e pôs-se a dar com a cabeça de um lado para o
outro, rilhando os dentes.”
Quando, Henrique viu a figura do Bruno, saiu
correndo e o coelho que, vendo-se livre, ganhou pela outra banda o caminho do
capinzal. Bruno perguntava com quem a esposa se esfregava e chamava-a de vaca,
no mesmo tempo que a esbofeteava e dava-lhes pontapés. Leocádia, nesse momento,
pegou uma pedra grande e ameaçava Bruno. Bruno expulsa Leocádia de casa e esta
aponta a barriga mostrando como ela ia ganhar a vida. Irritado, Bruno lança
pela janela os pertences da esposa infiel e, o cortiço participa assistindo à
cena e com comentários paralelos.
Nesse momento, um irmão do Santíssimo entra na
estalagem pedindo uma esmola para a cera do Sacramento. Leocádia arremetendo-se
contra a porta de sua casinha, que Bruno havia acabado de fechar, arrebenta-a,
indo ela cair lá dentro de barriga para cima.
Os moradores riam e ela raivosa atirava cada um dos
seus pertences. Alexandre chega para acalmar a situação e pede para que o Bruno
deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir para a estação. Ele alega que
pegou a esposa em pleno adultério e a esposa nega em lágrimas. Rita Baiana
aproxima-se e retira Leocádia do local.
IX
Passaram-se semanas e uma transformação, lenta e
profunda, operava-se em Jerônimo. A sua energia afrouxava lentamente; fazia-se
contemplativo e amoroso.
“A vida americana e a natureza do Brasil
patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam;
esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição; para idealizar felicidades
novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais
amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e
volvia-se preguiçoso, resignando-se vencido às imposições do sol e do calor,
muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio
entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros. E assim, pouco a
pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português:
e Jerônimo abrasileirou-se. [...] Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a
música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos...”
Piedade de Jesus, no entanto, conservava-se
inalterável, sem conseguir, à semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma
da nova pátria que adotaram e estava triste porque Jerônimo fazia-se outro e
evitava-a. Temia que Jerônimo não a “queria para mais nada e havia de reformar
a cama, assim como reformou a mesa”. Até que esse dia chegou. Jerônimo alegando
estar com calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde
então, não dormiram mais ao lado um do outro. Dias depois, armou a rede
defronte da porta de entrada. Em outro dia, reclamou que Piedade devia tomar
banho todos os dias e mudar de roupas. Ela começou a chorar e Jerônimo ralhou
com ela.
Piedade tinha certeza do interesse do marido por
Rita Baiana. Ele não passava pelo nº 9 sem parar e prosear com a mulata.
Falavam sobre a saúde, sobre Leocádia que estava grávida. Nas noites de samba
era o primeiro a chegar e o último a sair. Durante o pagode ficava de queixo
bambo ao ver dançar a mulata.
Piedade consultou Dona Paula para fazer algo que
trouxesse Jerônimo de volta. A Bruxa ensinou-lhe uma simpatia:
banhasse todos os dias e desse a beber ao seu homem, no café pela manhã algumas
gotas das águas da lavagem; e, se no fim de algum tempo, este regime não
produzisse o desejado efeito, então cortasse um pouco dos cabelos do corpo,
torrasse-os até os reduzir a pó e lhos ministrasse depois da comida.
Firmo também se preocupava com Rita. Ele morava num
cômodo na oficina em que trabalhava e só ficavam juntos aos domingos durante o
dia e então não relaxavam o seu jantar de pândega. Um dia fora vê-la fora de
hora e encontrou-a conversando com Jerônimo. No jantar ficou de mau humor e
recordou-se de suas façanhas de capoeiragem e das mortes acumuladas. Rita
avisou Jerônimo de que se acautelasse.
Nesse dia, ocorreu outro escândalo no nº 12, entre
a velha Marciana e sua filha Florinda. Marciana percebera que o fluxo menstrual
da filha estava atrasado e naquele dia, viu a filha vomitar. Marciana chamou D.
Paula que examinou a menina e confirmou que era gravidez. Em seguida, partiu
aos murros em cima da filha. A menina fugiu pela janela e agrupou-se com os
moradores que atraídos pelos gritos estavam na porta do nº 12. Pressionada pela
mãe, Florinda confessou que foi o Domingos, o autor de sua desgraça.
Marciana arrastou a filha e acompanhada por um
grupo de moradores até a porta lateral da venda e gritou por João Romão.
“– Venho entregar-lhe esta perdida! Seu
caixeiro a cobriu, deve tomar conta dela”
Florinda confirmou que foi o Domingos o
responsável: “um dia de manhãzinha, às quatro horas, no capinzal, debaixo das
mangueiras...”
As pessoas foram posicionando-se e principiaram os
comentários, os juízos pró e contra o caixeiro, enquanto Domingos negava-se a
casar com Florinda. Os moradores fizeram um cerco para evitar que Domingos
fugisse e ameaçavam chamar a polícia.
João Romão ordenou que Domingos não saísse naquele
momento e foi ao terreiro comunicar que o rapaz estava disposto a casar-se com
Florinda.
“E, se não casar, a pequena terá o seu dote!”
João Romão, em seguida, dispensou o caixeiro “sem
acertar as suas contas”, afirmando que o saldo do funcionário não chegava para
pagar o dote da rapariga.
À noite, Augusta e Alexandre, receberam a visita da
comadre, Léonie e a afilhada Juju. Léonie era prostituta de casa aberta, mas
prezava de respeito da comadre e de todos do cortiço. A admiração por Léonie
devia à sua generosidade e à impressão deslumbrada que ela causava com seu
luxo, sua extravagância e seus hábitos afetados.
Piedade ao ver Léonie comenta que a roupa branca da
madama era rica como a da Nossa Senhora da Penha; Nenen, disse que a invejava;
Albino contemplava-a em êxtase e Rita Baiana oferece rosas declarando que:
“(...) esta não está sujeita, como a Leocádia e outras, a pontapés e cachações
de um bruto de marido! É dona das suas ações! Livre como o lindo amor! Senhora
do seu corpinho, que ela só entrega a quem muito bem lhe der na veneta!”
Enquanto isso, Juju recebia elogios: “rica
pequena!”; “é um enlevo olhar a gente pro demoninho!”; “é mesmo uma lindeza de
criança!”; “uma criaturinha dos anjos!”; “uma boneca francesa!”; “uma menina
Jesus!”
Léonie perguntou sobre a Pombinha e demonstrou
indignação ao saber que a menina estava comprometida. Mandou buscar cervejas e
quando Pombinha chegou, recebeu-a com exclamações de agrado, beijou-a nos
dentes e nos olhos repetidas vezes.
“E uma amiga, cheia de interesse para ambas,
estabeleceu-se, isolando-as de todas as outras.”
Léonie convida Pombinha e sua mãe para jantarem no
domingo em sua casa e cochicha que: “– Não é preciso que ele saiba que vais lá
domingo, ouviste?”
X
O sobrado estava em preparos para o Miranda receber
seus convidados, por conta do seu título de Barão do Freixal. E, no cortiço
circulava a notícia de que Domingos desaparecera durante a noite e um novo
caixeiro o substituía ao balcão. Marciana foi queixar-se ao João Romão e ele
afastou-se, indiferente, afirmando que não “podia trazê-lo pendurado ao pescoço!”
Mãe e filha passaram a tarde inteira procurando
seus direitos e voltaram arrasadas para a casa, logo que se inteiraram da
escassez de recursos de ambas as partes. Marciana para afastar sua raiva põe-se
a lavar a casa e Florinda começou a chorar.
“– Agora deste para chorar, hein? Mas na
ocasião do relaxamento havias de estar bem disposta!”
Em seguida, precipitou-se sobre a filha com um
pedaço de madeira. Florinda foge e a mãe cai numa dor humilde enternecida de
mãe que perdeu o filho.
João Romão chegou à porta e ordenou à Marciana que
despejasse o número 12. O vendeiro estava transtornado desde o momento em que
leu no “Jornal do Comércio”, que o vizinho estava barão! À noite, quando se
estirou na cama, ao lado da Bertoleza, sonhou com um mundo diferente, habitado
por seres superiores e luxuosos, que ele via descendo para a terra, chegando ao
seu alcance. Ao seu lado, Bertoleza
“roncava, de papo para o ar, gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma
mistura de suor com cebola crua e gordura podre.”
“As seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda
resplandecia já. Içaram-se bandeiras nas janelas da frente; mudaram-se as
cortinas, armaram-se florões de murta à entrada e recamaram-se de folhas de
mangueira o corredor e a calçada. Dona Estela mandou soltar foguetes e queimar
bombas ao romper da alvorada. Uma banda de música, em frente à porta do
sobrado, tocava desde essa hora....[...] João Romão via tudo isso com o coração
moído. Certas dúvidas aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro: qual seria
o melhor e o mais acertado: - ter vivido como ele vivera até ali, curtindo
privações, em tamancos e mangas de camisa; ou ter feito como o Miranda, comendo
boas coisas e gozando à farta?...Estaria ele, João Romão, habilitado a possuir
e desfrutar tratamento igual ao do vizinho?...Dinheiro não lhe faltava para
isso...Sim, de acordo! Mas teria ânimo de gastá-lo assim, sem mais nem
menos?...sacrificar uma tetéia para o peito?...Teria ânimo de dividir o que era
seu, tomando esposa, fazendo famílias e cercando-se de amigos?...Teria ânimo de
encher definas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros, quando até ali
fora tão pouco condescendente para com a própria?...E, caso resolvesse mudar de
maneiras, montar um sobrado como o do Miranda e volver-se titular, estaria
somente da sua vontade?...”
Esses questionamentos causaram uma dolorosa
desconfiança de si mesmo e uma terrível convicção da sua impotência.
“– Teria gasto mais, é verdade!...Não estaria tão
bem!...mas, ora adeus! Estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem
quisesse!...Seria um homem civilizado!....”
Passou o dia implicando com todos: com o fiscal da
rua; com o gato da Machona; com as crianças de seu caminho; com o Libório; com
os italianos e depois com Marciana que não havia despejado o quarto.
“– Aqui mando eu! Aqui sou eu o monarca! E tinha
gestos inflexíveis de déspota.”
Marciana, desde que Florinda lhe fugira, só chorava
e agora, assistia ao seu despejo resmungando um interminável monólogo
desconexo. Algumas mulheres foram prestar-lhe ajuda, mas Marciana não
respondia. A festa no sobrado do Miranda continuava ao som de músicas e risos.
Às vezes, Henrique saía à janela, impaciente por não ver Pombinha, que estava
nesse dia com a mãe, em casa de Léonie. João Romão brigou com os caixeiros, com
Bertoleza e depois foi maldizer o Jerônimo:
“- O tal seu Jerônimo, dantes tão apurado, era
agora o primeiro a dar o mau exemplo! Perdia noites no samba! Não largava os
rastros da Rita Baiana e parecia embeiçado por ela!”
Na venda, João Romão recebe através de um caixeiro,
um convite do Miranda convidando-o a tomar uma xícara de chá, no sobrado, à
noite. De inicio ficou lisonjeado com o convite, mas depois achou que se
tratava de uma provocação. Alguns negros por compaixão haviam arrastado Marciana
para dentro da venda e Romão ao ver entrar um policial, todo molhado pela chuva
e pedir uma dose de parati, apelou para ele, dizendo:
“– Camarada, esta mulher é gira não tem domicílio,
e eu não hei de, quando fechar a porta, ficar com ela aqui dentro da venda!”
Uma hora depois, Marciana foi carregada para a
cadeia e seus pertences recolhidos ao depósito público por ordem do inspetor do
quarteirão. À noite, empolgados pela festa do Miranda, o samba começou mais
cedo no cortiço. Rita Baiana dançava e “cada verso que vinha da sua boca de
mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia,
enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto,
grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num
desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de
cobra.” Jerônimo não pode conter-se, segredou a mulata que:
“– Meu bem! Se você quiser estar comigo, dou uma
perna ao demo!”
Firmo percebeu, mas conteve-se até quando Rita
derreou-se toda sobre o português e soprou-lhe um segredo, requebrando os
olhos. Os instrumentos silenciam e os dois homens posicionam-se para uma briga.
Piedade tentou arrastar seu homem dali, mas foi empurrada pelo marido que
ameaçava o Firmo:
“- Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!
...rosnou ele.
- Dar-te um banho de fumaça, galego ordinário!
respondeu, Firmo.”
A luta principiou. As mulheres querendo apartar,
enquanto João Romão fechou a venda e o portão da estalagem, correndo para o
lugar da briga.
“O terror arrancava gritos agudos. Estavam já todos
assustados, menos a Rita que, a certa distância, via, de braços cruzados,
aqueles dois homens se baterem por causa dela; um ligeiro sorriso
encrespava-lhe os lábios. [...] Piedade berrava reclamando polícia e as janelas
do Miranda acumulavam-se de gente...”
Jerônimo voltou de sua casa com um varapau minhoto
(pedaço de madeira, comprido e torto, que serve de apoio e de arma, o adjetivo
minhoto refere-se à região do Minho, em Portugal) e Firmo com o rosto banhado
de sangue pegou uma navalha e desferiu um golpe em Jerônimo, rasgando-lhe o
ventre, sendo acudido pela esposa e pela mulata. A polícia chegou, mas é
impedida de entrar no cortiço.
“Um empenho coletivo os agitava agora, a todos,
numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia
entrasse ali pela primeira vez. [...] A polícia era o grande terror daquela
gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande
estropício; à caça de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam
os quartos, quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma
questão de ódio velho.”
Até que o portão lascou e “os quatro primeiros
urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos a pedradas e garrafas
vazias. Seguiram-se outros...”
Principiou então o salseiro grosso: polícia versus
moradores do cortiço, quando Nenen gritou que havia fogo no número 12!
“A esse grito um pânico geral apoderou-se dos
moradores do cortiço. Um incêndio lamberia aquelas cem casinhas enquanto o
diabo esfrega um olho! Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar
o que era seu. E os policiais, aproveitando o terror dos adversários, avançaram
com ímpeto, levando na frente o que encontravam...[...] Nisto, roncou no espaço
a trovoada. O vento do norte zuniu mais estridente e um grande pé-d´água
desabou cerrado.”
XI
“A Bruxa, por influência sugestiva da loucura de Marciana,
piorou do juízo e tentou incendiar o cortiço. Enquanto os companheiros o
defendiam a unhas e dentes, ela, com todo o disfarce, carregava palha e
sarrafos para o número 12 e preparava uma fogueira. Felizmente acudiram a
tempo; mas as consequências foram do mesmo modo desastrosas, porque muitas
outras casinhas, escapando como aquela ao fogo, não escaparam à devastação da
polícia.”
Ninguém foi preso e graças às chuvas, o incêndio
foi acalmado. Logo cedo, João Romão furioso avaliou o seu prejuízo e concluiu
que, “para cobrir o dano, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem,
aumentando-lhes o aluguel dos cômodos e o preço dos gêneros.”
João Romão foi chamado à subdelegacia na secretaria
da polícia e muitos moradores ou por camaradagem ou curiosidade o acompanham
como numa verdadeira romaria. O interrogatório, embora, fosse dirigido a João
Romão, todos participaram incriminando a política por ter invadido o local,
onde apenas estavam se divertindo. Dentro do cortiço, ninguém denunciava ninguém.
Como pode ser confirmado, quando o médico que atendeu Jerônimo perguntou-lhe o
que havia acontecido; e, a sua resposta foi: “- Estavam a brincar e sucedera
aquilo!” Rita cuidou de Jerônimo o tempo todo.
“Agora toda ela se sentia apegar-se àquele homem
bom e forte; àquele gigante inofensivo, àquele Hércules tranquilo que mataria o
Firmo com uma punhalada, mas que, na sua boa fé, se deixara navalhar pelo
facínora. [...] E ele, tomava-lhe as mãos, e cingia-lhes a cintura, resignado e
comovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas a dizer bem claro, na sua dor
silenciosa e quieta de animal ferido, que a amava muito, que a amava
loucamente.”
No dia seguinte, Jerônimo foi encaminhado ao
hospital, acompanhado pelas duas mulheres. De manhã, Pombinha acordou indisposta.
A mãe atribuiu a culpa por ela ter tomado muito gelado na casa de Léonie.
Realmente, a ida à casa de Léonie jamais apagaria de sua vida. A cocote
recebeu-a de braços abertos e assentou-se ao seu lado, fazendo-lhe muitas
perguntas, e pedindo-lhe beijos, que saboreava gemendo de olhos fechados. Às
duas da tarde, foi servido um lanche e champanha. Léonie demonstrava por
Pombinha “extremas solicitudes de namorado; levava-lhe a comida à boca, bebia
do seu copo, apertava-lhe os dedos por debaixo da mesa”; enquanto que Dona
Isabel, que não estava habituada a beber, foi descansar.
Léonie dirige-se à Pombinha e diz:
“– Vem cá, minha flor!...disse-lhe, puxando-a
contra si e deixando-se cair sobre um divã. Sabes? Eu te quero cada vez
mais!...Estou louca por ti!. [...] E devorava-a de beijos violentos, repetidos,
quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo
temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual
era.”
Léonie levou Pombinha para o quarto e começou tocar
em seu corpo e a despi-la. Pombinha “com vontade de afastar-se, mas sem ânimo
de protestar, por acanhamento”, tentava reatar uma conversa, enquanto Léonie
desabotoava-lhe o vestido e dizia;
“– Que tolice a tua...!Não vês que sou mulher,
tolinha?...De que tens medo?...Olha! Vou dar exemplo!”
A menina negou despir-se e a cocote num movimento
rápido desfez-se da roupa e investiu na menina. Pombinha cruzou os braços sobre
o seio e “apesar dos protestos, das súplicas e até das lágrimas da infeliz,
arrancou-lhe a última vestimenta, e precipitou-se contra ela, a beijar-lhe todo
o corpo, a empolgar-lhe com os lábios o róseo bico do peito.”
Pombinha pedia para ela parar, mas Léonie pondo em
contato com o dela todo o seu corpo nu; “o atrito daquelas duas grossas pomas
irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o roçar vertiginoso
daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua
feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora do sangue, desertando-lhe a
razão ao rebate dos sentidos. Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes,
fremindo-lhe a carne em crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima,
doida de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos (pinotes) de
égua, bufando e relinchando.
E metia-lhe a língua tesa pela boca e pelas
orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de
espuma, e mordia-lhe o lóbulo dos ombros, e agarrava-lhe convulsivamente o
cabelo, como se quisesse arrancá-lo aos punhados. Até que, com um assomo mais
forte, devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, secos,
curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, exânime, inerte, os membros
atirados num abandono de bêbedo, soltando de instante a instante um soluço
estrangulado.”
Pombinha chorava e gritava que nunca mais voltaria
a encontrá-la. A cocote animava-lhe, beijando-lhe, enleando-a pelas pernas e
comprometendo-se a ser a sua escrava, e obedecer-lhe como um cachorrinho,
contanto que aquela tirana não fosse assim zangada... Depois do jantar, Léonie
dá um anel com um diamante para Pombinha que só aceitou por insistência de sua
mãe.
Na manhã imediata, Pombinha seguia constrangida e
resolveu dar um passeio por detrás do cortiço, à sombra dos bambus e das
mangueiras. A menina sentia necessidade de estar só e ao mesmo tempo, sentia-se
arrependida, “toda a sua carne ria e rejubilava-se, pressentindo delícias que
lhe pareciam reservadas para mais tarde, junto de um homem amado”.
Deitou-se debaixo daquela sombra fresca, fechou as
pálpebras e sonhou que em “redor ia tudo se fazendo de um cor de rosa...[...]
até formar-se em torno dela uma floresta vermelha...E viu-se nua, exposta ao
céu, sob a tépida luz de um sol embriagador, que lhe batia de chapa sobre os
seios....depois uma borboleta, sem parar nunca (...) medrosa de tocar com as
suas antenas de brasa a pele delicada e pura da menina.”
Pombinha, assim, despertou e sentiu o grito da
puberdade sair-lhe afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente.
XII
Pombinha correu desesperada para casa e ao
encontrar sua mãe, “ergueu as saias do vestido e expôs à Dona Isabel as suas
fraldas ensanguentadas.”
A mãe agradeceu a Jesus Cristo e abraçou-se às
pernas da filha e, beijou-lhe a barriga e parecia querer beijar “aquele sangue bom,
que descia do céu, como a chuva benfazeja sobre uma pobre terra esterilizada
pela seca.” E, saiu pelo pátio comunicando a notícia. Todos vieram
parabenizá-las e davam conselhos:
“Que não apanhasse umidade! Que não bebesse coisas
frias! Que se agasalhasse o melhor possível e, no caso de sentir o corpo mole,
que se metesse logo na cama!”
D. Isabel mandou chamar o João da Costa e fez um
jantar para comemorar. Mas, desde o dia da navalhada, a estalagem estava
triste: não havia mais cantorias; Rita estava aborrecida desde que Jerônimo
partiu para a Ordem; Firmo foi proibido de entrar no cortiço; Piedade depois da
primeira visita ao hospital certificou-se de que havia perdido o seu homem para
a mulata e Bruno sentia saudades de Leocádia.
Mesmo diante de tanta tristeza, Pombinha e João da
Costa marcaram o dia do casamento... Bruno procurou Pombinha e pediu que ela
escrevesse uma carta à Leocádia, afinal:
“Coitada! É mais doida do que ruim!” Pois se a
gente até dos brutos tem penas!” E finalizou a carta “...se ela quiser tornar
pra minha companhia...que pode vir...Eu esqueço tudo!”
Pombinha ao ver Bruno chorar sentiu-se estranha,
porque só depois que “ela formou-se mulher”, teve olhos para essas violentas
misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. [...] ela
compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens... Que estranho poder era esse, que
a mulher exercia sobre eles, a tal ponto, que os infelizes, carregados de
desonra e de ludíbrio, ainda vinham covardes e suplicantes mendigar-lhe o perdão
pelo mal que ela lhes fizera?...E continuou a sorrir, desvanecida na sua
superioridade sobre esse outro sexo... [...] E viu Firmo e o Jerônimo
atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadela da rua; e viu o
Miranda, lá defronte, subalterno ao lado da esposa infiel...; e viu Domingos,
que fora da venda... perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com
sacrifício, só para ter um instante de luxúria entre as pernas de uma
desgraçadinha irresponsável e tola; e tornou a ver o Bruno a soluçar pela
mulher, e outros....” E, pensou no Costa que era como os outros submisso,
passivo e resignado. Pombinha sentia repugnância em dar-se ao noivo e, se não
fora a mãe, terminaria o noivado. Mas, chegou o dia do casamento...
XIII
O cortiço crescia e agora, na mesma rua, germinava
outro cortiço: o “Cabeça de Gato”. Figurava como proprietário um português que
também tinha uma venda, mas o verdadeiro proprietário era um abastado
conselheiro, homem de gravata lavada, a quem não convinha, por decoro social,
aparecer em semelhante gênero de especulações. Romão temia um concorrente,
entregou-o aos fiscais e colocou-o seus moradores contra os do outro. Em pouco
tempo, os dois cortiços já eram inimigos. Começava ali uma rivalidade que não
permitia que o habitante de um cortiço migrasse para o outro; o peixeiro que
falou mal dos “Carapicus” no “Cabeça de Gato” acabou sendo encontrado morto.
“Os
habitantes do “Cabeço de Gato” (bandeira amarela) tomaram por alcunha o título
do seu cortiço, e os de “São Romão”, tirando o nome do peixe que a Bertoleza
mais vendia à porta da taverna, foram batizados por “Carapicus” (bandeira
vermelha). Firmo logo, instalou-se no “Cabeça de Gato” e ganhou prestígio e
simpatias pelas suas façanhas e tornou-se chefe de malta. Seus encontros com
Rita passaram a ser furtivos.
Romão desde que o Miranda conseguira o baronato
transformou-se: fez roupas novas, frequentou a barbearia, associou-se a um
clube de dança, começou a usar relógio, reformou a sua casa, trocou os móveis,
instalou chuveiro, começou a comer decentemente, passou a beber vinho, passeava
no Passeio Público, ia ao teatro, assinou o “Jornal do Comércio”, lia romances
franceses traduzidos, admitiu mais três caixeiro, passou a frequentar a Rua
Direita e “principiava a meter-se em altas especulações, aceitava ações de
companhias de títulos ingleses e só emprestava dinheiro com garantias de boas
hipotecas.”
Miranda vendo essa transformação tornou-se mais
amável com Romão. Passou a cumprimentá-lo e chegou a convidá-lo para o
aniversário de D. Estela, mas Romão não compareceu. Bertoleza, por sua vez,
continuou a mesma: suja, atrapalhada de serviço, cada vez mais escrava e
rasteira, não participava das novas regalias do companheiro e caiu em imensa
depressão. Botelho, por sua vez, aproximou-se de Romão e um dia insinuou:
“- Aquela pequena é que lhe estava a calhar, seu
João!...
- Ali, tudo aquilo é sólido!...Prédios e ações do
banco!
- Se você souber levá-lo, apanha-lhe a
filha...”
Romão tinha dúvidas se Zulmira o aceitaria, mas
Botelho o tranquilizava afirmando que a “menina foi criada a obedecer aos pais,
sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com a família,
que de dentro empurre o negócio e verá se consegue ou não!” Botelho pediu 20
contos de réis para interceder nessa união e Romão oferecia dez.
“– Caso o meu nobre amigo se decida pelos 20,
receberá do Barão um chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; aceita o
convite, vai, e encontrará o terreno preparado.”
Botelho não faltou com a palavra. Dias depois,
Romão preparava-se para ir à casa de Miranda. Zulmira ostentava seus 17 anos de
idade e não parecia tão anêmica e deslavada.
Romão tentou portar-se como um cavalheiro, porém só
quando ganhou as ruas, sentiu-se totalmente livre. Já em sua casa ao deitar-se
ao lado daquela preta fedorenta a cozinha e bodum (cheiro fétido) de peixe e,
ver o negrume de suas pernas gordas e lustrosas, lembrou-se do estorvo que “o
diabo daquela negra seria para o seu casamento”.
“Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas
que a Bruxa dera à Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentiu grávida! Mas,
afinal, de que modo se veria livre daquele trambolho?...”- E se ela
morresse?...”
XIV
Passaram três meses. Firmo continuava a
encontrar-se com a Rita Baiana, mas a mulata estava cada vez mais fria e a
discussões eram contínuas entre o casal. Em um domingo, Rita não apareceu e
Firmo enfurecido foi vigiar o São Romão. Sem novidades, decidiu entrar no
botequim do Garnisé. Um mulatinho do “Cabeça de Gato” sentou-se ao seu lado e
comentou que o Jerônimo havia saído do hospital. Jerônimo ainda debilitado
deixou o hospital, retornou a sua casa no cortiço e disse:
“– O que me saberia bem agora era uma xicrinha de
café, mas queria-o bom como o faz a Rita...”
Piedade prontamente foi chamar a Rita. Jerônimo
confessou à mulata que:
“- Não digo mal, mas confesso que não encontro nela
umas tantas coisas que desejava...”
Rita contou-lhe que despachou Firmo, que não tem e
não quer mais nenhum homem. Jerônimo aproximou-se de Rita, apalpou-lhe a
cintura de Rita, mas foram interrompidos com a chegada de Piedade, anunciando
que o Zé Carlos e o Pataca queriam falar-lhe. Os três foram conversar num lugar
mais discreto e Jerônimo foi informado que Firmo vivia bêbedo no bar do Garnisé
e que estava na hora de “liquidar a coisa hoje mesmo!”
“- Ainda estou muito fraco... observou lastimoso o
convalescente.”
“- Mas o teu pau está forte! E além disso cá
estamos nós dois. Tu podes até ficar em casa, se quiseres...”
Jerônimo decidiu “fazer o serviço” naquela mesma
noite e pagaria 40 pra cada um e depois comemorariam com vinhos. Ao cair da
noite Jerônimo encontrou-se com seus dois amigos. Os planos eram: Pataca
entraria no Bar do Garnisé, provocaria uma discussão com Firmo e chamaria o
Firmo para resolverem a confusão na rua. Beberam e saíram para o serviço.
XV
Pataca entrou no Bar do Garnisé afetando grande
bebedeira. Lá, encontrou Florinda acompanhada por uma velha quase cega e um
homem inteiramente calvo (Sr. Bento), que sofria de asma. Ela contou-lhe que
depois de fugir da estalagem, ficou na rua e dormiu numas obras de uma casa em
construção. E que no dia seguinte oferecendo-se como criada ou de ama-seca,
encontrou um velho solteiro e rico que a tomou ao seu serviço e meteu-se com
ela. Até o dia em que brigaram, e, “como o vendeiro da esquina estava sempre a
chamá-la para casa, um belo dia arribou, levando o que apanhara ao velho.” Mas,
“o tratante, a pretexto de que desconfiava dela com Bento marceneiro, pô-la na
rua, chamando a si o que a pobre de Cristo trouxera da casa do outro e
deixando-a só com a roupa do corpo e ainda por cima doente por causa de um
aborto que tivera logo que se metera com semelhante peste.“ “(...) O Bento
tomara-a então à sua conta, graças a Deus, por enquanto não tinha razões de
queixa.”
Florinda acrescentou que sua mãe, a Marciana estava
internada num hospício. Pataca localiza Firmo no bar e fingindo estar bêbedo,
convidou o “amigo” para beberem mais e tentou convencê-lo a entregar o canivete
a ele. Depois de muita “conversa fiada”, Firmo comentou que estava sofrendo
porque a Rita não havia aparecido naquele dia. Pataca aproveitou-se da situação
e contou que o Jerônimo voltou à estalagem e instigou Firmo a procurá-lo. Em
seguida, disse que viu a Rita na Praia da Saudade acompanhada... Firmo decidiu
procurá-la e Pataca acompanhou-o “amigavelmente”.
Chegando ao local, Pataca reconheceu os dois
comparsas, desarmou o Firmo e covardemente os três deram-lhe várias pauladas
até que “tomados de uma irresistível vertigem de pisar bem a cacete aquela
trouxa de carne mole e ensanguentada, que grunhia frouxamente a seus pés.
Afinal, quando de todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a
trouxa até a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes, deitaram
a fugir, à toa, para os lados da
cidade.”
Chovia forte naquela noite. Jerônimo pagou aos
comparsas o combinado e foram beber para relaxarem e comemorarem. Jerônimo ao
chegar estalagem, dirigiu-se a sua casa e pela fechadura viu que a luz estava
acesa. Piedade esperava-o aflita e “pensou sentir, vindo lá de dentro, o bodum
azedo que ela punha de si, fez uma careta de nojo e encaminhou-se resolutamente
para a casa da mulata...” Rita estava preocupada por não ter ido encontrar-se
com Firmo justamente no dia, que Jerônimo voltou à estalagem. Tinha medo e
receio de uma nova briga.
“Amara-o a princípio por afinidade de temperamento,
pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em
ambos, depois continuou a estar com ele por hábito, por uma espécie de vício
que amaldiçoamos sem poder largá-lo; mas desde que Jerônimo propendeu para ela,
fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da
mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu o europeu macho
de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições
mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a
mulata era o prazer, era a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões
americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu
corpo porejou o cheiro sensual dos bodes. [...] Amavam-se brutalmente, e ambos
sabiam disso. Esse amor irracional e empírico carregara-se muito mais, de parte
a parte, com o trágico incidente da luta, em que o português fora vítima.
Jerônimo aureolou-se aos olhos dela com uma simpatia de mártir sacrificado à
mulher que ama; cresceu com aquela navalhada; iluminou-se com o seu próprio
sangue derramado, e, depois, a ausência no hospital veio a completar a
cristalização do seu prestígio, como se o cavouqueiro houvera baixado a uma
sepultura, arrastando atrás de si a saudade dos que o choravam.”
E, Jerônimo amou-a logo que a viu, “porque sentiu
nela o resumo de todos os quentes mistérios que o enlearam voluptuosamente
nestas terras da luxúria...” Rita escutou baterem à porta e ficou desesperada
acreditando ser o Firmo. Ao abrir a porta tremeu ao ver que se tratava de
Jerônimo sujo de sangue. Jerônimo contou que foi cuidar da vida deles e
entregou-lhe a navalha de Firmo. Revelou que matou o Firmo e que estava
disposto a fugir com ela. Quanto à Piedade, ele deixaria as suas economias e
continuaria pagando o colégio da filha.
“– O que não falta é p’r’onde ir! Em qualquer parte
estaremos bem. Tenho aqui sobre mim uns quinhentos mil réis, para as primeiras
despesas. Posso ficar cá até às cinco horas; são duas e meia; saio sem ser
visto por Piedade; mando-te ao depois dizer o que arranjei, e tu irás ter
comigo.
– Sim, sim, meu cativeiro! Respondeu a baiana,
falando-lhe na boca; eu quero ir contigo; quero ser a tua mulata, o bem do teu
coração!”
[...] “Jerônimo, ao senti-la inteira nos seus
braços; ao sentir na sua pele a carne quente daquela brasileira; ao sentir
inundar-lhe o rosto e as espáduas, num eflúvio de baunilha e cumaru, a onda
negra e fria da cabeleira mulata; ao sentir esmagarem-se no seu largo e peludo
colo de cavouqueiro os dois globos túmidos e macios, e nas suas coxas as coxas
dela; sua alma derreteu-se, fervendo e borbulhando como um metal ao fogo, e
saiu-lhe pela boca, pelos olhos, por todos os poros do corpo, escandescente, em
brasa, queimando-lhe as próprias carnes e arrancando-lhe gemidos surdos,
soluços irreprimíveis, que lhe sacudiam os membros, fibra por fibra, numa
agonia extrema, sobrenatural, uma agonia de anjos violentados por diabos entre
a vermelhidão cruenta das labaredas do inferno.”
XVI
Piedade ainda esperava por Jerônimo e sem ter
notícias, temia que algo de ruim tinha-lhe acontecido. Quando amanheceu,
Piedade saiu desesperada à procura de notícias de seu marido. Os curiosos
perguntavam todos os detalhes, numa boa disposição para fazer daquilo o
escândalo do dia.
Piedade chorava e repetia: “– Forte desgraça a
minha!”
O cortiço já estava em sua movimentação costumeira
e Piedade, “assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão
que espera pelo dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra, e parecia
disposta a morrer ali mesmo...”
A esposa abandonada pôs-se a caminhar agitada,
falando sozinha e amaldiçoando aquele sol devasso que fazia ferver o sangue aos
homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode.
“Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouvia
em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao romper do
dia, rilhava o bando truculento das queixadas; [...] lá Jerônimo seria ainda o
mesmo esposo casto, silencioso e meigo; seria o mesmo lavrador triste e
contemplativo, como o gado que à tarde levanta para o céu de opala o seu olhar
humilde, compungido e bíblico.”
Ao passar defronte do número 9 ouviu a Rita
cantando. O cortiço já estava assanhado com a notícia da morte do Firmo, os
“Cabeça de Gato” incriminavam os carapicus e juravam vingança.
Piedade voltou enfurecida após saber que o marido
fora visto na companhia do Zé Carlos e o Pataca bebendo e andando na Praia da
Saudades. A notícia, de certa forma, aliviou-a e voltou correndo a casa disposta
a brigar com Jerônimo, mas surpreendeu-se a encontrar a porta trancada. Quando
tomou ciência do assassinato de Firmo outro pensamento veio-lhe a mente:
“– Se ele matou o Firmo, dormiu na estalagem e não
veio ter comigo, é porque então deixou-me de feita pela Rita!”
Piedade ao ver Rita “pegaram-se logo a unhas e
dentes. [...] Dois partidos todavia se formavam em torno das lutadoras; quase
todos os brasileiros eram pela Rita e quase todos os portugueses pela
outra...(...) E as palavras “galego” e “cabra” cruzaram-se de todos os pontos,
como bofetadas.”
[...] “De repente, uns quarenta e tantos homens de
pulso invadiram a estalagem. O pátio estava quase cheio; ninguém mais se
entendia; todos davam e todos apanhavam. [...] Ouviam-se, num clamor de pragas
e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brasil. Mas, no melhor da luta, ouvia-se
na rua um coro de vozes que se aproximavam das bandas do “Cabeça de Gato”. Era
o canto de guerra dos capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos
carapicus, pra vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.”
XVII
Os moradores da estalagem pararam de brigar entre
si e armaram-se para enfrentar um novo inimigo. Agora não eram mais portugueses
versus brasileiros; mas, sim, um partido que ia ser atacado pelo partido
contrário. Porfírio vinha na frente e os capoeiras distribuíam golpes para
todos os lados, quando avisaram que um incêndio no número 88 estava eclodindo.
“Houve nas duas maltas um súbito espasmo de terror.
Abaixaram-se os ferros e calou-se o hino de morte. Um clarão tremendo
ensanguentou o ar, que se fechou logo de fumaça fulva. A Bruxa conseguira
afinal realizar o seu sonho de louca: o cortiço ia arder...(...) A luta ficava
para outra ocasião.”
Os moradores correram para tentar salvar seus pertences.
A bruxa surgiu à janela da sua casa rindo, quando se viu o desabamento da casa
incendiada, sepultando a louca entre as madeiras em brasa. Polícia, bombeiros e
uma multidão tentavam acalmar as labaredas.
XVIII
Romão ao ver o velho Libório correndo ao seu
esconderijo, seguiu-o e vendo o coitado tirar do seu colchão algumas garrafas
tentou ajudá-lo. Libório agarrado as garrafas e vomitando sangue mordia as mãos
do vendeiro. Romão consegue arrancar as garrafas do velho e foge dali levando
as garrafas cheias de dinheiro e, deixando Libório “sem conseguir por-se de pé,
rastreava na pista dele, rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo
ele roxo, os dedos enriçados como as unhas de abutre ferido.”
No dia seguinte, a polícia averiguou os destroços
do incêndio e buscou vítimas. Rita desaparecera da estalagem no momento da
confusão; Piedade estava de cama com uma febre de quarenta graus; uma filhinha
da Augusta, a Carne-Mole morrera esmagada; das Dores, uma cabeça partida; a
Machona Leandra, uma orelha rachada e um pé torcido; Bruno fora anavalhado na
coxa; um italiano perdera os dentes da frente; dois trabalhadores da pedreira
estavam feridos gravemente e todos se queixavam da má sorte. Bruno vai para o
hospital da Ordem e Leocádia vai visitá-lo.
Sr. Miranda apareceu para dar os pêsames, mas, ao
mesmo tempo felicitou Romão de ter assegurado a estalagem. O vendeiro após a
primeira tentativa de incêndio tratou de segurar todas as suas propriedades e
agora, em vez de o fogo trazer-lhe prejuízo, até lhe dava lucros. Enquanto que
os infelizes moradores tentavam salvar seus cacarecos, Miranda comentava com
maldade que eles não tinham nada para perder.
Romão expôs os seus planos de reconstrução da
estalagem. Miranda ouviu com atenção e concluiu que “pena é estar metido com a
peste daquela crioula! Nem sei como um homem tão esperto caiu em semelhante
asneira!”
Só depois de ter certeza de que Bertoleza dormia,
Romão foi contar o dinheiro das garrafas roubadas de Libório. Grande quantidade
das cédulas era prescrita. Depois, conformou-se. Afinal, fez um ato de justiça
impedindo que todo aquele dinheiro apodrecesse.
“Sim! Se havia nisso ladroeira, queixassem-se do
governo! O governo é que era o ladrão!”
XIX
Nos dias seguintes, a reforma do cortiço avançou e
aqueles que ficaram sem moradia foram ajeitando-se desordenadamente pelos
cantos à espera dos novos cômodos, mas ninguém se mudou para o “Cabeça de
Gato”. Bruno estava hospitalizado na Ordem, Leocádia foi visitá-lo e lá,
reataram a sua relação. Piedade após o abandono do marido envelhecera, mas não
se queixava, e ninguém lhe ouvia falar no nome do esposo. A reforma do cortiço
também alcançou a venda, onde levantou um sobrado mais alto e mais vistoso que
do Miranda. Agora, todos os domingos, Romão jantava na casa do Miranda, iam ao
teatro e andava de braços dados com a Zulmira, dava-lhe presentes, procurando
sempre galanteá-la. Bertoleza percebeu tudo calada, submissa, sem ânimo de
reclamar os seus direitos.
“Na sua obscura condição de animal de trabalho, já
não era amor o que a mísera desejava, era somente confiança no amparo da sua
velhice quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida. [...]
Adorava o amigo, tinha por ele o fanatismo irracional das caboclas do Amazonas
pelo branco a que se escravizam, dessas que morrem de ciúmes, mas que também
são capazes de matar-se para poupar ao seu ídolo a vergonha do seu amor.”
Bertoleza deixou de ser a amante do vendeiro e
tornou-se somente sua escrava. Um dia, ouvindo Botelho incentivar Romão a pedir
“a mão” de Zulmira, Bertoleza não se conteve e chorou muito. Por outro lado,
Jerônimo morava com Rita numa estalagem da Cidade Nova e trabalhava na pedreira
de São Diogo, onde trabalhava dantes. As despesas eram altas, tiveram que
comprar todos os arranjos da casa e não pouparam nos apetrechos. Até um
banheiro próprio construíram, porque o da estalagem repugnou à baiana. Nos
primeiros dias, os dois viveram em plena lua de mel. Jerônimo se transformou
totalmente: a guitarra substituiu-a pelo violão e a baiana deu-lhe uma rede e
um cachimbo, apresentou-lhe as cantigas do norte, as comidas típicas da Bahia,
o temperado com azeite de dendê, muquecas, cachaça...
“O português abrasileirou-se para sempre; fez-se
preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento;
fora-se-lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de
enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de possuir a mulata e ser
possuído só por ela, só ela, e mais ninguém.”
Piedade também se transformou e passou a beber
todos os dias para enganar os pesares.
“Fez-se madraça e moleirona, precisando já empregar
grande esforço para não bulir nas economias que Jerônimo lhe deixara, porque
isso devia ser para a filha, aquela pobrezinha orfanada antes da morte dos
pais.”
Os seus únicos momentos de contentamento eram com a
visita de sua filha, que o pessoal da estalagem passou chamá-la por
“Senhorinha”. Um dia a filha entregou à mãe um aviso de cobrança de seis
meses da pensão do colégio. Piedade sabia o endereço de Jerônimo e foi
cobrá-lo. Jerônimo surgiu com “um ar triste de vicioso envergonhado que não tem
ânimo de deixar o vício. A mulher, ao vê-lo, perdeu logo toda a energia com que
chegara e comoveu-se tanto, que as lágrimas lhe saltaram dos olhos às primeiras
palavras que lhe dirigiu. [...] Não lhe parecia a mesma! Como estava mudada! E
tratou-a com brandura, quase a pedir-lhe perdão...
– Minha pobre velha...balbuciou, pousando-lhe a mão
larga na cabeça.”
Esse simples gesto trouxe novamente esperanças à
Piedade que sentiu desejos de se jogar nos braços de Jerônimo. Contava ouvir
desaforos de Jerônimo; mas encontrá-lo desgostoso, “sua alma postou-se
reconhecida [...] Jerônimo deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao ombro
e depois à cintura da esposa, ela desabou, escondendo o rosto contra o peito
dele, numa explosão de soluços que lhe faziam vibrar o corpo
inteiro.
– Consola-te! Que queres tu?...São
desgraças!...disse o cavouqueiro afinal, limpando os olhos. Foi como se eu
tivesse te morrido...mas podes ficar certa de que te estimo e nunca te quis
mal!...Volta para casa; eu irei pagar o colégio de nossa filhinha e hei de
olhar por ti. Vai, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdoe os desgostos que te
tenho eu dado!”
Jerônimo não conseguiu cumprir a promessa e isso,
deixou-o apreensivo. O problema era que Rita vivia de luxos e ele receou
contrariá-la e perdê-la.
A segunda aparição de Piedade foi acompanhava pela
filha e surpreendeu-o embriagado numa roda de amigos.
Jerônimo chamou à baiana e fez que Piedade e a
amante abraçassem-se, perdoassem-se e insistiu para que elas jantassem juntas.
Durante o jantar, Piedade reclamou de sua vida e chorou. Jerônimo deu um soco
na mesa e ordenou que ela pagasse a conta do colégio com o dinheiro que ele
havia deixado. E, acrescentou que a filha já não precisava de colégio e que
viesse morar com ele.
“– Ó mulher! Você não está separada dela a semana
inteira?... Pois a pequena, em vez de ficar no colégio, fica aqui, e aos
domingos irá vê-la. Ora aí tem!
- Eu quero antes ficar com minha mãe!...balbuciou a
menina, abraçando-se a Piedade.
- Ah! Também tu, ingrata, já me fazes guerra?!Pois
vão com todos os diabos! E não me tornem cá para me ferver o sangue, que já
tenho de sobra com que arreliar-me!”
Rita não se envolveu na contenda, esperou as duas
saírem, aproximou-se de seu homem e beijou-lhe. Enquanto isso, no portão da
estalagem, Piedade com sua filha tentavam controlar suas lágrimas.
XX
Já em sua casa, Piedade bebeu e saiu para o pátio.
“Mas o cortiço já não era o mesmo... O pátio, como João Romão havia prometido,
estreitara-se com as edificações novas; agora parecia uma rua... Fizeram-se
seis latrinas, seis torneiras de água e três banheiros. Desapareceram as
hortas, os jardins... e os imensos depósitos de garrafas vazias. [...] De cento
e tantos, a numeração dos cômodos elevou-se a mais de quatrocentos; e tudo
caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas, portas verdes e goteiras
encarnadas.”
[...] “João Romão conseguira meter o sobrado do
vizinho no chinelo; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as cortinas e
com a mobília nova impunha respeito. Foi abaixo aquele grosso e velho muro da
frente com o seu largo portão de cocheira, e a entrada da estalagem era agora
dez braças mais para dentro, tendo entre ela e a rua um pequeno jardim com
bancos e um modesto repuxo ao meio, de cimento, imitando pedra...e na tabuleta
nova [...] lia-se em letras caprichosas: AVENIDA SÃO ROMÃO.”
O Cabeça de Gato estava totalmente vencido e
desmoralizado perdendo seus moradores para os carapicus.Num domingo, durante a
reunião de um grupo com viola, Piedade apareceu e depois de beber, começou a
tomar interesse no pagode. Romão ao chegar ao cortiço encontrou-a a “dançar ao
som de palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia levantada,
os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu choradinho da Bahia.
Era a boba da roda. Batiam-lhe palmadas no traseiro e com o pé embaraçavam-lhe
as pernas, para a ver cair e rebolar-se no chão.”
Romão pôs ordem no ambiente e recebeu protestos
principalmente de Piedade e de Pataca. O casal se recolheu a casa de Piedade e
depois de comerem, beberem, Piedade explicou a causa do sucedido naquela tarde.
Pataca, então, tentou seduzi-la. Na cozinha, com a desculpa de fazer um
café, Pataca agarrou e arrastou Piedade ao chão, até conseguir saciar-se nela.
No momento em que Pataca retornou à sala deu de encontro com a Senhorinha, que
tinha acordado e no escuro assistiu a tudo. Pataca retornou imediatamente à
cozinha e encontrou Piedade no chão adormecida. Ao tentar levantá-la, ela
vomitou e foi preciso arrastá-la para a cama. A menina chorou ao ver o estado
da mãe e Pataca saiu furioso por não ter tomado café.
XXI
João Romão passeava em seu novo quarto, pensando em
um meio de livrar-se de Bertoleza que agora dormia embaixo de um vão de escada,
aos fundos do armazém, perto da latrina. Romão sentia-se pressionado por
Miranda e D. Estela que queriam marcar a data de casamento.
“Como poderia agora mandá-la passear assim, de um
momento para outro, se o demônio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo
e toda a gente na estalagem sabia disso? E sentia-se revoltado e impotente
defronte daquele tranquilo obstáculo que lá estava embaixo, a dormir...”
No entanto, a sua união com Zulmira significava
fazer-se membro de uma família tradicionalmente orgulhosa e aumentava os seus
bens com o dote da noiva, além de herdar mais tarde o que o Miranda possuía,
realizando-se deste modo, um velho sonho que o vendeiro afagou desde o
nascimento da sua rivalidade com o vizinho: tornar-se “um verdadeiro chefe da
colônia portuguesa no Brasil”, conquistar o título de Visconde e mais tarde, de
Conde! Depois, iria à Europa, “pródigo, brasileiro, atordoando o mundo velho
com o seu ouro novo americano!”
“Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida,
porque era tudo o que havia de mau na vida dele! Seria um crime conservá-la a
seu lado! Ela era o torpe balcão da primitiva bodega; era o aladroado
vintenzinho de manteiga em papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido
à noite ao lado do fogareiro à porta da taberna; era o frege imundo e a lista
cantada das comezainas à portuguesa; era o sono roncado num colchão fétido,
cheio de bichos; ela era a sua cúmplice e era todo seu mal – devia, pois,
extinguir-se!”
Romão, então pensou matar “aquela miserável preta
que ali dormia indiferentemente, o grande estorvo da sua ventura!” Mas, ao se
aproximar da crioula, ela despertou e perguntou o que estava acontecendo...
“Se eu a tivesse despachado logo, quando ainda se
não falava no meu casamento, ninguém desconfiaria da história...Mas agora,
depois de todas aquelas reformas de vida; depois da separação das camas, e
principalmente depois que corresse a notícia do casamento, não faltaria decerto
quem o acusasse, se a negra aparecesse morta de repente!”
De manhã, o cortiço foi surpreendido por mais uma
desgraça. Agostinho despencou da pedreira quando brincava com mais dois
moleques e faleceu. Botelho persiste em convencer Romão despachar Bertoleza,
afinal “o dente que já não presta arranca-se fora!”
Bertoleza apareceu na sala e “a indignação
tirava-lhe faíscas dos olhos e os lábios tremiam-lhe de raiva:
“– Você está muito enganado, seu João, se cuida que
se casa e me atira à toa! exclamou ela. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos!
Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então há de uma criatura ver
entrar ano e sair ano, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus manda ao
mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para ao depois ser
jogada no meio da rua, como galinha podre?! Não! Não há de ser assim, seu
João!”
Romão confirmou que pretendia casar-se com Zulmira,
mas que não a deixaria desamparada e já estava negociando uma quitanda para
ela. Bertoleza responde:
“– Não! Com quitanda principiei; não hei de ser
quitandeira até morrer! Preciso de um descanso! Para isso mourejei junto de
você enquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saúde! [...] Quero ficar a seu
lado! Quero desfrutar o que nós dois ganhamos juntos! Quero a minha parte no
que fizemos com o nosso trabalho! Quero o meu regalo, como você quer o seu!
[...] quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo
aguentar a sua casa com o meu trabalho. Então a negra servia para tudo; agora
não presta pra mais nada, e atira-se com ela no monturo do cisco! [...] quer
casar, espere então que eu feche primeiro os olhos; não seja ingrato.”
Romão ficou raivoso e saiu. Botelho tentou
acalmá-lo e perguntou-lhe se Bertoleza era escrava quando a conheceu. Esta
pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro que estava planejando interná-la no
Hospício de Pedro II. Romão resolveu entregá-la ao seu antigo dono, Freitas de
Melo e restituí-la legalmente à escravidão. Era só denunciá-la que o seu senhor
viria buscá-la com a polícia. E contratou Botelho para efetuar o serviço
mediante o pagamento de duzentos mil réis.
XXII
Desde a discussão com Miranda, Bertoleza só trocava
algumas palavras necessárias com o vendeiro; só comia comidas que ela mesma
preparava e só dormia depois de trancar-se a chave. Os negócios de Romão
continuavam prosperando: “fizera-se o fornecedor de todas as tabernas e
armarinhos de Botafogo; o pequeno comércio sortia-se lá para vender a retalho.”
A sua casa tinha agora um pessoal complicado de caixeiros, guarda-livros,
despachante; do seu escritório saíam correspondências em várias línguas;
faziam-se contratos comerciais, transações em que se arriscavam fortunas;
negociações de empresas e privilégios obtidos do governo; realizavam-se vendas
e compras de papéis; concluíam-se empréstimos de juros fortes sobre hipotecas
de grande valor e como a casa comercial de Romão a sua avenida também
prosperava. Muitos moradores já não conseguiam pagar o aluguel da casinha e
acabavam mudando-se para o “Cabeça de Gato” e as casinhas eram ocupadas agora
por pequenas famílias de operários, artistas e praticantes de secretaria.
Florinda agora amigada com um despachante de
estrada de ferro voltou para o São Romão e lamentava-se pela morte de sua mãe,
a velha Marciana, no hospício. Não mais se admitiam pagode e provocações ao
relento. A Machona, depois da morte de Agostinho estava mais calma e havia um
pretendente à mão de Nenen; Alexandre fora promovido a sargento e Léonie
continuava a visitar o cortiço, agora acompanhada por Pombinha, que se atirou
ao mundo e vivia agora em companhia da madrinha.
A filha de D. Isabel já nos seus primeiros anos de
casada não suportou a mesmice de seu marido; todavia, a princípio, para
conservar-se mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espírito, até que
“faltou-lhe o equilíbrio e a mísera escorregou, caindo nos braços de um boêmio
de talento, libertino e poeta, jogador e capoeira.” Costa, um dia, seguiu sua
esposa e pegou-a em flagrante, não mais com o poeta libertino, e, sim, com um
artista dramático. Rompeu com a esposa adúltera, entregou-a a mãe e mudou-se
para São Paulo.
D. Isabel tentou interceder pelo casal, escreveu ao
genro pedindo para que ele perdoasse Pombinha, mas não obteve resposta. Passados
alguns meses, Pombinha desapareceu da casa da mãe e foi morar num hotel junto
de Léonie. A mãe jurou que a filha estava morta para ela, mas sem forças para
se manter, aceitou de cabeça baixa o dinheiro da prostituição, que Pombinha
mandava.
“Depois, como neste mundo uma criatura a tudo se
acostuma, Dona Isabel mudou-se para a casa da filha. Mas não aparecia nunca na
sala quando havia gente de fora, escondia-se; e, se algum dos frequentadores de
Pombinha a pilhava de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se
criada ou dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ela não podia
tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com champanha
depois do jantar e por-se a dizer tolices e a estender-se ali mesmo no colo dos
homens.”
D. Isabel deprimida, desgostosa e enferma foi
internada num hospital e lá, faleceu. Pombinha era mestra na arte do prazer e
“seus lábios não tocavam em ninguém sem tirar sangue; sabia beber, gota a gota,
pela boca do homem mais avarento, todo o dinheiro que a vítima pudesse dar de
si.”
Ela, Léonie e a Juju continuavam visitando o São
Romão e, lá, continuava sendo vista como a querida mestra. Pombinha tinha uma
simpatia especial pela filha de Piedade, idêntica à que noutro tempo fora
inspiração à Léonie.
“A cadeia continuava e continuaria
interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela
pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe
ébria.”
E a casa de Piedade sobrevivia graças às esmolas de
Pombinha.
“(...) vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre
ébria, dessa embriaguez sombria e mórbida que se não dissipa nunca. O seu
quarto era o mais imundo e o pior de toda a estalagem; homens malvados abusavam
dela, muitos de uma vez, aproveitando-se da quase completa inconsciência da
infeliz.”
Até que um dia, despejaram-lhe seus cacarecos na
rua e ela e a filha se mudaram para o Cabeça de Gato.
XXIII
Romão, ex-taverneiro e futuro visconde, espera pela
família do Miranda à porta de uma confeitaria da Rua do Ouvidor, quando Botelho
chegou trazendo a notícia de que encontrara o antigo dono de Bertoleza e que
era importante a presença dele no momento da entrega da escrava. Romão queria
evitar esse constrangimento, mas Botelho insistiu afirmando:
“– Que diabo lhe custa isto?...Os homenzinhos
chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a entrega – pronto! Fica
livre dela para sempre, e daqui a dias estoura o champanha do casório! Hein,
não lhe parece?
– Ela há de choramingar, fazer lamúrias e coisas,
mas você põe-se duro e deixe-a seguir lá o seu destino!...Bolas! não foi você
que a fez negra!...[...] faça como coisa que não tem nada com isso, compreende?
– Como, filho, se você não a alugou das mãos de
ninguém?!...Você não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre
naturalmente; agora aparece o dono, reclama-a e você a entrega, porque não quer
ficar com o que lhe não pertence! Ela, sim, pode pedir o seu saldo de contas;
mas para isso você lhe dará qualquer coisa.”
Durante o caminho, Botelho e Romão cruzaram uma
carruagem, que levava Pombinha e Henriquinho, agora no seu quarto ano de
medicina e que vivia à solta com outros da mesma idade e pagava ao Rio de
Janeiro o seu tributo de rapazola rico. Depois do jantar, um empregado veio
avisar que um senhor acompanhado de duas praças desejava falar ao dono da casa.
Romão recebeu os visitantes e leu a folha de papel que lhe fora entregue.
Dissimulando estar chocado, disse que pensava que Bertoleza fosse livre.
“Atravessaram o armazém [...] chegaram finalmente à
cozinha. Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de
cócoras, no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar
defronte dela aquele grupo sinistro. Reconheceu logo o filho mais velho do seu
primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande
perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê
perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de
alforria era mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la,
restituía-a ao cativeiro.
[...] Os policiais, vendo que ela se não
despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto
de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já
de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. João Romão
fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos. Nesse
momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas
que vinha de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.”


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