8 de abr. de 2014 0 comentários

Eu vos abraço, milhões



Obra: Eu vos abraço, milhões
Autor: Moacyr Scliar
Gênero: Romance

1.       Dados do Autor

                Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre (RS), no Bom Fim, bairro que até hoje reúne a comunidade judaica, a 23 de março de 1937, filho de José e Sara Scliar. Sua mãe, professora primária, foi quem o alfabetizou. Cursou, a partir de 1943, a Escola de Educação e Cultura, daquela cidade, conhecida como Colégio Iídiche. Transferiu-se, em 1948, para o Colégio Rosário, uma escola católica.
                Em 1955, passou a cursar a faculdade de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre (RS), onde se formou em 1962. Em 1963, inicia sua vida como médico, fazendo residência em clínica médica. Trabalhou junto ao Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU), daquela capital.
                Publica seu primeiro livro, “Histórias de um Médico em Formação”, em 1962. A partir daí, não parou mais. São mais de 67 livros abrangendo o romance, a crônica, o conto, a literatura infantil, o ensaio, pelos quais recebeu inúmeros prêmios literários. Sua obra é marcada pelo flerte com o imaginário fantástico e pela investigação da tradição judaico-cristã. Algumas delas foram publicadas na Inglaterra, Rússia, República Tche-ca, Eslováquia, Suécia, Noruega, França, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Holanda e Espanha e em Portugal, entre outros países.
                Em 1965, casa-se com Judith Vivien Oliven. Em 1968, publica o livro de contos "O Carnaval dos Animais", que o autor considera de fato sua primeira obra. Especializa-se no campo da saúde pública como médico sanitarista. Inicia os trabalhos nessa área em 1969. Em 1970, freqüenta curso de pós-graduação em medicina em Israel, sendo aprovado. Posteriormente, torna-se doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública.
                Seu filho, Roberto, nasce em 1979. A convite, torna-se professor visitante na Brown University (Departament of Portuguese and Brazilian Studies), em 1993, e na Universidade do Texas, em Austin. Colabora com diversos dos principais meios de comunicação da mídia impressa (Folha de São Paulo e Zero Hora). Alguns de seus textos foram adaptados para o cinema, teatro e tevê.
                Nos anos de 1993 e 1997, vai aos EUA como professor visitante no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University. Em 31 de julho de 2003 foi eleito, por 35 dos 36 acadêmicos com direito a voto, para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira nº 31, ocupada até março de 2003 por Geraldo França de Lima. Tomou posse em 22 de outubro daquele ano, sendo recebido pelo poeta gaúcho Carlos Nejar. O escritor faleceu no dia 27/02/2011, em Porto Alegre (RS), vítima de falência múltipla de órgãos.

2.       Contexto Histórico

                Certamente, o que mais se destaca ao longo de todo o enredo da obra de Moacyr Scliar são os diversos fatos históricos pelo narrador-personagem narrados ou citados, que vão desde o período do Coronelismo e da República Velha, conforme se nota ao princípio da obra, passando pela Revolução Russa, início da Era Vargas até a história brasileira mais recente, tudo sob a ótica militante e engajada do movimento Comunista e Anarquista no país.
                O período que vai de 1889 a 1930 é conhecido como a República Velha. Este período da História do Brasil é marcado pelo domínio político das elites agrárias mineiras, paulistas e cariocas. O Brasil firmou-se como um país exportador de café, e a indústria deu um significativo salto. Na área social, várias revoltas e problemas sociais aconteceram nos quatro cantos do território brasileiro.
                O período que vai de 1894 a 1930 foi marcado pelo governo de presidentes civis, ligados ao setor agrário. Estes políticos saiam dos seguintes partidos: Partido Republicano Paulista (PRP) e Partido Republicano Mineiro (PRM). Estes dois partidos controlavam as eleições, mantendo-se no poder de maneira alternada. Contavam com o apoio da elite agrária do país.
                Dominando o poder, estes presidentes implementaram políticas que beneficiaram o setor agrário do país, principalmente, os fazendeiros de café do oeste paulista. Surgiu neste período o tenentismo, que foi um movimento de caráter político-militar, liderado por tenentes, que faziam oposição ao governo oligárquico. Defendiam a moralidade política e mudanças no sistema eleitoral (implantação do voto secreto) e transformações no ensino público do país. A Coluna Prestes e a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana foram dois exemplos do movimento tenentista.
                A maioria dos presidentes desta época eram políticos de Minas Gerais e São Paulo. Estes dois estados eram os mais ricos da nação e, por isso, dominavam o cenário político da república. Saídos das elites mineiras e paulistas, os presidentes acabavam favorecendo sempre o setor agrícola, principalmente do café (paulista) e do leite (mineiro). A política do café-com-leite sofreu duras críticas de empresários ligados à indústria, que estava em expansão neste período.
                Se por um lado a política do café-com-leite privilegiou e favoreceu o crescimento da agricultura e da pecuária na região Sudeste, por outro, acabou provocando um abandono das outras regiões do país. As regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste ganharam pouca atenção destes políticos e tiveram seus problemas sociais agravados.
                A figura do "coronel" era muito comum durante os anos iniciais da República, principalmente nas regiões do interior do Brasil. O coronel era um grande fazendeiro que utilizava seu poder econômico para garantir a eleição dos candidatos que apoiava. Era usado o voto de cabresto, em que o coronel (fazendeiro) obrigava e usava até mesmo a violência para que os eleitores de seu "curral eleitoral" votassem nos candidatos apoiados por ele. Como o voto era aberto, os eleitores eram pressionados e fiscalizados por capangas do coronel, para que votasse nos candidatos indicados. O coronel também utilizava outros "recursos" para conseguir seus objetivos políticos, tais como: compra de votos, votos fantasmas, troca de favores, fraudes eleitorais e violência.
                Ao mesmo tempo, ocorria na Europa a Revolução Russa, que seria o início de muitos dos conflitos que se dariam dali por diante em todo o mundo. No começo do século XX, a Rússia era um país de economia atrasada e dependente da agricultura, pois 80% de sua economia estava concentrada no campo (produção de gêneros agrícolas).
                Os trabalhadores rurais viviam em extrema miséria e pobreza, pagando altos impostos para manter a base do sistema czarista de Nicolau II. O czar governava a Rússia de forma absolutista, ou seja, concentrava poderes em suas mãos não abrindo espaço para a democracia. Mesmo os trabalhadores urbanos, que desfrutavam os poucos empregos da fraca indústria russa, viviam descontentes com o governo do czar.
                No ano de 1905, Nicolau II mostra a cara violenta e repressiva de seu governo. No conhecido Domingo Sangrento, manda seu exército fuzilar milhares de manifestantes. Marinheiros do encouraçado Potenkim também foram reprimidos pelo czar. Começava então a formação dos sovietes (organização de trabalhadores russos) sob a liderança de Lênin. Os bolcheviques começavam a preparar a revolução socialista na Rússia e a queda da monarquia.
                Faltava alimentos na Rússia czarista, empregos para os trabalhadores, salários dignos e democracia. Mesmo assim, Nicolau II jogou a Rússia numa guerra mundial. Os gastos com a guerra e os prejuízos fizeram aumentar ainda mais a insatisfação popular com o czar.  Greves de trabalhadores urbanos e rurais espalham-se pelo território russo. Ocorriam muitas vezes motins dentro do próprio exército russo. As manifestações populares pediam democracia, mais empregos, melhores salários e o fim da monarquia czarista. Em 1917, o governo de Nicolau II foi retirado do poder e assumiria Kerenski (menchevique) como governo provisório.
                Com Kerenski no poder pouca coisa havia mudado na Rússia. Os bolcheviques, liderados por Lênin, organizaram uma nova revolução que ocorreu em outubro de 1917. Prometendo paz, terra, pão, liberdade e trabalho, Lênin assumiu o governo da Rússia e implantou o socialismo. As terras foram redistribuídas para os trabalhadores do campo, os bancos foram nacionalizados e as fábricas passaram para as mãos dos trabalhadores. Lênin também retirou seu país da Primeira Guerra Mundial no ano de 1918. Foi instalado o partido único: o PC (Partido Comunista).
                Após a revolução, foi implantada a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Seguiu-se um período de grande crescimento econômico, principal-mente após a NEP (Nova Política Econômica). A URSS tornou-se uma grande potência econômica e militar. Mais tarde rivalizaria com os Estados Unidos na chamada Guerra Fria. Porém, após a revolução a situação da população geral e dos trabalhadores pouco mudou no que diz respeito à democracia. O Partido Comunista reprimia qualquer manifestação considerada contrária aos princípios socialistas. A falta de democracia imperava na URSS.
                Em 1930 o então presidente da república era Washington Luís, pertencente à elite cafeeira de São Paulo. Assim, com as eleições, o próximo presidente a ser eleito seria um candidato provindo de Minas Gerais. Entretanto, Washington Luís rompe a aliança com o partido mineiro e apoia a candidatura do então paulista Júlio Prestes, devido a desentendimentos de caráter pessoal com o candidato que o partido de Minas Gerais havia escolhido para sucede-lo,  o que gera tensão entre os participantes da política do “café-com-leite”. Estes últimos por sua vez se aliam ao Rio Grande do Sul e à Paraíba, lançando Getúlio Vargas como presidente e João Pessoa como seu vice. Era o fim da República do Café com Leite.
                Insatisfeitos com tal medida, um grupo de oligarquias dissidentes – principalmente de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba – criaram uma chapa eleitoral contra a candidatura de Júlio Prestes. Conhecida como Aliança Liberal, a chapa encabeçada pelo fazendeiro gaúcho Getúlio Dorneles Vargas prometia um conjunto de medidas reformistas. Entre outros pontos, os liberais defendiam a instituição do voto secreto, o estabelecimento de uma legislação trabalhista e o desenvolvimento da indústria nacional.
                Sob um clima de desconfiança e tensão, o candidato Júlio Prestes foi considerado vencedor das eleições daquele ano. Mesmo com a derrota dos liberais, um possível golpe armado ainda era cogitado. Com o assassinato do liberal João Pessoa, em 26 de julho de 1930, o movimento oposicionista articulou a derrubada do governo oligárquico com o auxílio de setores militares.
                Depois de controlar os focos de resistência nos estados, Getúlio Vargas e seus aliados chegam ao Rio de Janeiro, em novembro de 1930. Iniciando a chamada Era Vargas, Getúlio ficaria por quinze anos ininterruptos no poder (1930 – 1945) e, logo depois, seria eleito pelo voto popular voltando à presidência entre os anos de 1951 e 1954.
                No contexto econômico internacional destaca-se a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 e consequentemente a crise que assombrou o mundo capitalista, assim como seu modelo econômico liberal. O Brasil neste período ainda era agrário, e tinha como principal produto de exportação o café que também entrou em uma profunda crise, assolando a economia do país que aumentou o saldo de sua dívida externa. Essa crise econômica sem precedentes foi suficiente para levar à ascensão de movimentos brasileiros como o Anarquismo e o Comunismo.
                Em 25 de março de 1922, era fundado, em Niterói, no Rio de Janeiro, o Partido Comunista Brasileiro. O pequeno grupo de nove delegados – sobretudo operários e artesões –, representando pouco mais de 70 militantes, de diversas regiões do Brasil, dimensionavam os limites orgânicos do movimento nascente. A ideologia anarco-sindicalista e a escassa formação marxista dos novos comunistas demarcavam igualmente a fragilidade política do movimento em formação.
                Entretanto, foi enorme o sentido simbólico daquela reunião. Sob o impulso da Revolução de 1917, pela primeira vez em uma nação ainda essencialmente rural e profundamente federalista, os trabalhadores expressavam em forma clara e explícita a vontade de organizar-se em partido para a luta pela construção de uma sociedade nacional e internacional sem explorados e exploradores.
                O anarquismo no Brasil ganhou força com a grande imigração de trabalhadores europeus entre fins do século XIX e início do século XX. Em 1889 Giovani Rossi tentou fundar em Palmeira, no interior do Paraná, uma comunidade baseada no trabalho, na vida e na negação do reconhecimento civil e religioso do matrimônio, (o que não significa, necessariamente, "amor livre"), denominada Colônia Cecília. A experiência teve curta duração.
                No início do século XX, o anarquismo e o anarco-sindicalismo eram tendências majoritárias entre o operariado, culminando com as grandes greves operárias de 1917, em São Paulo, e1918-1919, no Rio de Janeiro. Durante o mesmo período, escolas modernas foram abertas em várias cidades brasileiras, muitas delas a partir da iniciativa de sindicatos e agremiações operárias anarquistas ou de inclinação anarquista. As Escolas Modernas aplicavam uma pedagogia libertária, inspirada no pensamento de Francisco Ferrer, e foram reprimidas a partir dos anos 20, sendo fechadas no estado de São Paulo. Mesmo após o declínio do movimento anarquista no Brasil, o Anarquismo e a Pedagogia Libertária se refletiram posteriormente no pensamento dos maiores pedagogos brasileiros, como Paulo Freire com sua Pedagogia Libertadora, que busca a consciência de classe e a autonomia do indivíduo.

3.       Enredo

                No final dos anos 20, Valdo é um jovem do interior do Rio Grande do Sul que vive com os pais numa estância. Depois de conhecer Geninho, influencia-se pelas ideias do amigo, que empresta para ele livros comunistas. Vendo seu pai sendo ofendido pelo patrão, o coronel Nicácio - o latifundiário agredindo o trabalhador - toma consciência de que deveria fazer algo. Resolve entrar para o Partido, mas antes precisa ir ao Rio de janeiro receber ensinamentos do maior líder comunista naquele momento, Astrojildo Pereira, um dos tantos personagens que realmente existiram e que permeiam a narrativa.
                Na Capital Federal, enquanto espera uma oportunidade para conhecer o líder que está fora do país, trabalha na construção do Cristo Redentor, o que vai de encontro ao seu ateísmo. Percebe também que as ideias comunistas serão difíceis de serem realizadas com uma população tão alienada pela religião, o ópio do povo segundo Marx. Devido a conflitos dentro do próprio Partido e por uma posição mais pragmática de vida, Valdo aos poucos vai se distanciando de seus ideais, mas o espectro volta a assombrá-lo nos anos 60, com o filho seguindo o caminho que o pai deixou de trilhar.
                A história é contada por Valdo através de uma longa carta ao seu neto, que está nos EUA. Em outros livros, Scliar usou recurso parecido, como em Pra você eu conto, livro infanto-juvenil que narra uma história também sobre a utopia comunista. Outros temas recorrentes do escritor estão presentes, como a medicina e o judaísmo. Da mesma forma, o estilo inconfundível do autor é notório, com suas frases curtas e repletas de vocativos, apostos e inversões sintáticas, um atrativo para quem o lê pela primeira vez.
                Apesar das referências a questões políticas e econômicas, como a quebra da Bolsa de Nova Iorque e a revolução de 30 que levou Getúlio Vargas ao poder, o romance aborda muito mais a fé, seja na religião ou em um partido político (as reuniões do Partido Comunista pareciam atos religiosos, com juramentos e confissões). Cada pessoa que segue um ou outro acaba perdendo sua individualidade, tornando-se apenas uma massa sem rosto no meio de milhões.

4.       Ambiente

                O ambiente da obra “Eu vos abraço, Milhões” alterna-se ao longo de todo enredo, apresentando ao leitor ações e aspectos que, hora marcam o ambiente como saudável e positivo, e hora marcam o mesmo como doentio e decadente.
                Essa dualidade já é notada desde o princípio, onde temos o protagonista vivendo em meio a uma humilde família, sujeita aos mandos e desmandos do coronel, para qual o pai de Valdo trabalhava, o que se deve ao poder e influência exercidos pelos coronéis no contexto histórico da época, conforme supracitado. Ao mesmo tempo, contrapõe-se a isso a amizade entre Valdo e Geninho, unida por conta de laços ideológicos e pela própria condição social de ambos os personagens. Também é relacionada a essa vertente do ambiente da obra a busca de Valdo em nome da revolução em busca de Astrojildo Pereira.
                Outros aspectos que podem caracterizar essa dualidade é a sexualidade. Tratada de modo realista e objetivo pelo autor, ao mesmo tempo que consagra sentimentos de amor, notado quando o jovem conhece Chica à caminho do Rio de Janeiro,  é utilizado como mera forma de prazer, sendo tratado de forma exdrúxula, conforme se confirma quando Valdo se relaciona com a dona da pensão aonde se hospeda.
                Porém, o aspecto que provavelmente mais leva a um ambiente negativo a perda da ideologia comunista e a favor da busca de mudanças e transformações por parte do protagonista.

5.       Crítica

                Ao longo da análise da obra em estudo, notam-se a presença de teorias científico-filosóficas. O Epicurismo se faz notar em alguns momentos. A valorização da vida terrena, dos prazeres materiais, e atualmente, do consumismo, característica marcante do capitalismo, sistema ao qual Valdo a princípio se matinha contra.
                Ainda, temos como predominante o Marxismo, que inspira todas as ações que norteiam o enredo; Tal teoria interpreta a vida social conforme a dinâmica da base produtiva das sociedades e das lutas de classes daí conseqüentes. O marxismo compreende o homem como um ser social histórico e que possui a capacidade de trabalhar e desenvolver a produtividade do trabalho, o que diferencia os homens dos outros animais e possibilita o progresso de sua emancipação da escassez da natureza, o que proporciona o desenvolvimento das potencialidades humanas. A luta comunista se resume à emancipação do proletariado por meio da liberação da classe operária, para que os trabalhadores da cidade e do campo, em aliança política, rompam na raiz a propriedade privada burguesa, transformando a base produtiva no sentido da socialização dos meios de produção, para a realização do trabalho livremente associado - o comunismo -, abolindo as classes sociais existentes e orientando a produção - sob controle social dos próprios produtores - de acordo com os interesses humano-naturais.
                Paralelamente, da mesma forma as ações de Valdo podem ser justificadas através do Determinismo de Taine. Sendo as ações e princípios humanos definidos através do momento histórico e do meio, temos um contexto histórico favorável à militância e engajamento dos jovens em busca de transformações, da mesma forma que um meio humilde o faz. Assim, sob essa ótica podem ser justificadas por esses dois aspectos a rumo tomado pelo protagonista ao longo da narrativa. 
                A obra de Moacyr apresenta citações de arquétipos bíblicos em determinados momentos, conforme se nota na página 12: “ [...] de criar um novo dilúvio, não destruidor como aquele a que só Noé, sua família e seus bichos sobreviveram; não, um dilúvio cálido, amável, um dilúvio em que todos pudessem navegar, [...]”. Tendo também influências de outros autores como Euclides da Cunha pertencente ao Pré- Modernismo e sua obra “Os Sertões” que menciona a história de Canudos.
                 “Eu voa abraço, Milhões” é uma produção que mescla fatos verossímeis e fatos históricos ao romance ficcional.  A linguagem da obra pertence à norma padrão culta, mesclando, porém, marcas de oralidades, sempre a serviço dos objetivos a serem cumpridos pelo autor com a obra.
               
6.       Capa

                A criação do experiente Victor Burton, a capa de Eu vos abraço, milhões (Companhia das Letras, 256 páginas), do romance do não menos experiente Moacyr Scliar, serviu de ponto de partida para a compreensão da história. Num primeiro momento, a ilustração de um trabalhador com os braços cruzados estampa uma manchete de um jornal comunista. Outra ilustração traz a estátua do Cristo Redentor em construção, já com os “braços abertos sobre a Guanabara”. Por último, e com maior destaque, soldados sobre um caminhão são recebidos pelo povo com os braços abertos, da mesma forma que o Cristo. Política, religião e as massas são os eixos temáticos do romance, e por aí segui minha leitura.
7.       O título

                O título vem de um verso do poeta Friedrich Schiller, Ode à alegria, presente na Nona Sinfonia de Beethoven, uma das obras máximas do Romantismo alemão. O Romantismo foi um período cultural que tinha como características a individualidade e o idealismo. Curiosamente, apesar do pronome pessoal “eu”, o verso de Schiller é usado sob uma perspectiva comunista, ligada ao coletivo que minimiza o indivíduo. Aliás, algumas traduções do poema optam por “abracem-se” em vez de “eu vos abraço”, o que combinaria melhor com o comunismo. Também é uma referência à religiosidade, representada pela pose do Cristo Redentor. “Abraçar os milhões de seres humanos que compunham as massas, esse deveria ser nosso ideal”, diz um dos personagens do romance.

8.       Análise Comparada
               
                A primeira obra de Moacyr Scliar, Histórias de um médico em formação, foi publicada em 1962, o último, Eu vos abraço, milhões, em 2010. No decorrer de quase cinquenta anos, o escritor construiu uma obra sólida, conhecida e prestigiada nacional e internacionalmente. Dessa constam romances, contos, novelas, crônicas e ensaios, publicados no Brasil e no exterior, antologias próprias e presença em coletâneas coletivas, traduções e textos para crianças.
                Tal participação na literatura confere a essa obra características próprias, configurando-a enquanto um universo autônomo e auto-suficiente. Por isso, puderam ser identificados nela seus traços mais marcantes: a narração da trajetória da imigração judaica da Europa para o Brasil, com suas consequências mais diretas, tais como a instalação desse contingente de pessoas no país, especialmente no Rio Grande do Sul, as dificuldades de adaptação, a preocupação com a educação dos filhos, o sucesso profissional desses, os problemas pessoais decorrentes da integração ao novo modo de vida, sendo essa a matéria de romances como:

·         A guerra do Bom Fim (1982),
·         O exército de um homem só (1973),
·         Os deuses de Raquel (1975),
·         O ciclo das águas (1977),
·         O centauro no jardim (1980),
·         A estranha nação de Rafael Mendes (1983),
·         Cenas da vida minúscula (1991),
·         A Majestade do Xingu (1997).

                A partir desse tema central, Scliar permite-se a representação do Brasil moderno, cujos retratos e complexidade transparecem por intermédio do percurso existencial das personagens que criou. Essas se integram ao processo de formação da burguesia nacional, que é também o de urbanização e modernização do país, e experimentam os efeitos das mudanças: dilaceram-se entre amoldar-se docilmente ao sistema, com frequência abdicando de suas tradições, assimilando-se, portanto, como se verifica em O centauro no jardim ou Cenas da vida minúscula; ou reagir a esses apelos, postando-se criticamente diante deles, o que pode significar tanto a retomada dos laços com o judaísmo, quanto a tentativa de modificar a sociedade, quando não expressa o esforço em associar essas duas atitudes, de algum modo transformadoras, de que é exemplo o Capitão Birobidjan, protagonista de O exército de um homem só.
                A análise dos componentes sociais encontráveis na obra de Scliar volta-se seguidamente à exposição dos tópicos antes resumidos. Sem rejeitá-los, seria o caso, entretanto, de orientar a visão para outro campo, que, se não é divergente, associa o escritor de outra maneira a um tema que tem igualmente ligações com o mundo judaico – o culto do livro, de que é sinal a celebração de datas como a que comemora Simchat Torah, período em que recomeça a leitura dos cinco livros de Moisés. Com este propósito, procura-se doravante chamar a atenção para a forma como, nos romances, o livro e a leitura são elaborados na condição de experiência, examinada antes desde a perspectiva particular do autor, a seguir desde o ponto de vista das personagens.
                O tema se apresenta desde os escritos iniciais de Scliar. No entanto, procurando privilegiar a trajetória pessoal do ficcionista, transcrevem-se suas lembranças das primeiras leituras, que, se ocorreram na infância por estímulo da família, foram narradas nas suas “Memórias de um aprendiz de escritor”:

                Cresci ouvindo histórias. Porque tinham histórias a contar, eles: meus pais, meus tios, nossos vizinhos. Eram, na maioria, emigrantes. Da Rússia. Lá tinham vivido, como seus antepassados, em pequenas aldeias, em meio a uma lírica miséria, lendo a Bíblia, praticando a religião, e trabalhando como artesãos e pequenos comerciantes.
                Contar histórias. Eis uma coisa que meus pais sabiam fazer particularmente bem, com graça e humor; sabiam transformar pessoas em personagens, acontecimentos em situações ou cenas. De minha mãe adquiri o gosto pela leitura. Éramos pobres; não indigentes; não chegávamos a passar fome; mas tínhamos de economizar. Apesar disto nunca me faltou dinheiro para livros. Minha mãe me levava à tradicional Livraria do Globo e eu podia escolher à vontade. Desde pequeno estava lendo. De tudo, como até hoje: Monteiro Lobato e revistas em quadrinhos, divulgação científica e romances. Mesmo os impróprios para menores. Minha mãe tinha Saga, de Erico Veríssimo, escondido em seu roupeiro; naquela época, Erico era considerado um autor imoral. Falava em (horror!) sexo. Mas eu logo descobri onde estava à chave, e quando minha mãe saía, mergulhava na leitura proibida.
                Monteiro Lobato era meu autor preferido. Mas eu também lia o “Tesouro da Juventude”, uma enciclopédia infanto-juvenil em dezoito volumes. Curioso, eu queria saber tudo: por que chove? Quem depois de morta foi rainha? Lia, lia. Deitado num sofá, o livro servindo como barreira entre eu e o mundo. Isto: o livro é uma barreira; mas é também a porta. A porta para um mundo imaginário, onde eu vivia grande parte do meu tempo.
                Interrompo a tarefa de escrever estas linhas, levanto-me, vou até a prateleira onde estão os meus livros infantis. São infantis, mas não os de minha infância: estes sumiram. Aos poucos, num sebo e em outro, fui refazendo parte de minha biblioteca de então: Rute e Alberto, de Cecília Meireles; Os nenês d’água, de Charles Kingsley; Alice no país das maravilhas; As aventuras de Tibicuera, de Erico Veríssimo; Histórias de um quebra-nozes, de Alexandre Dumas; Robin Hood, Tarzan, livros sobre piratas... Apanho um volume: é a trigésima edição de Cazuza, de Viriato Correa, obra concluída pelo autor justamente no ano em que nasci – 1937. Folheio-a com a mesma sensação que tive pela primeira vez, a de descobrir um Brasil que eu não conhecia, o Brasil do Maranhão, o Brasil do Pata Choca, do Padre Zacarias, de Luiz Gama. O Brasil do professor João Câncio dizendo – numa época em que o ufanismo era a tônica: “Somos um país pobre, um povo pobre... Mas justamente porque a terra não é mais doce, nem a mais generosa, nem a mais rica é que é maior o valor de nossa gente”. Humildes livros, bravos livros.

(SCLIAR, 1984, p. 22-24).

                O trecho em que o Autor recorda esse período da infância foi publicado em um livro dirigido às crianças. A circunstância é sugestiva da relação que Scliar pretende estabelecer com seus leitores: dá a entender que, agora adulto, deseja repetir, com os jovens que o lêem, uma experiência imitada dos pais e de efeitos positivos. Contando seu passado e transformando-o em matéria de leitura, espera ver reproduzido o processo que vivenciou, por intermédio do qual teve seu gosto despertado para a literatura, sentiu-se reintegrado à tradição de onde proveio e sensibilizou-o para os problemas de seu tempo e espaço.
                O trecho não apenas ilustra experiências iniciais dignas de serem multiplicadas; traduz ainda o modo como o escritor compreende a leitura: julga-a uma forma de conhecimento, transmitindo informações que satisfazem curiosidades e, ao mesmo tempo, posicionam o indivíduo na sua época e local. Assim, por um lado, o livro é um elemento da rotina doméstica e parte da família, pois amplia e solidifica a função dessa, ao possibilitar ao leitor entender seu lugar na tradição e no presente. De outro, é um componente da vida cotidiana, integrando o ser humano à cultura e dando-lhe a autonomia e a consciência necessárias para encarar a sociedade que o espera. Os textos lidos assumem então caráter eminentemente agregador, dando sentido e ordem à existência; por isso, precisam ser transportados da infância à idade adulta, fato que determina mais um elo: o do ser humano com sua história pessoal, na qual as obras consumidas desempenharam papel decisivo.
                Esses elos acabam por desenhar um perímetro maior, porque o ficcionista depois repassa-os a alguns de seus heróis. Em razão disto, cumpre verificar como se comportam as personagens criadas por Moacyr que são também leitoras. O exército de um homem só é protagonizado por Mayer Guinzburg, jovem revolucionário que, com seus amigos, idealiza um mundo novo e mais justo. Os encontros do grupo, durante os quais se planeja uma sociedade superior, são permeados de literatura:

                1928. Mayer Guinzburg, sua namorada Leia, e seu amigo José Goldman passeavam à noite no Parque da Redenção. Fazia frio, mas eles não se importavam; corriam, saltavam, rolavam na grama, riam e cantavam. Leia declamava os versos de Walt Whitman. (...) Walt Whitman. Depois de 1848, Walt Whitman preferia conviver com trabalhadores e gente humilde, explicava Leia. Até então vestira-se como um peralvilho; mas desde esta época usava trajes rudes. Queria abraçar o povo, beijar o povo, fundir-se nele. Declamando, Leia tremia de emoção. Era meiga e loira. Morava sozinha com o pai. A mãe os abandonara quando Leia tinha cinco anos. O pai era doente; quando se incomodava com Leia, dizia que ela ainda acabaria por matá-lo. Por causa disto, Leia chorava muito. Depois enxugava as lágrimas, procurava seus amigos e declamava para eles.

(SCLIAR, 1973, p. 13-14)

                Naquele ano Mayer Guinzburg lia Rosa Luxemburg (1870-1919), que ele chamava carinho-samente “minha rosa de Luxemburgo”, embora ela não fosse de Luxemburgo e sim da Polônia. Muito moça, emigrava para a Alemanha, lá casando com um trabalhador. (...) Rosa de Luxemburgo... Mayer Guinzburg chorava lendo as “Cartas da Prisão”. Rosa de Luxemburgo; Mayer Guinzburg tinha uma fotografia dela; um rosto puro e iluminado, parecido ao de Leia. Rosa de Luxemburgo.

 (SCLIAR, 1973, p. 25).

                1942. Mayer Guinzburg ainda não tem certeza, mas sabe que acabará por fazê-lo: no trigésimo sétimo dia de sua doença saltará da cama, livre de toda a fadiga. Se vestirá silenciosamente, olhando Leia que dorme; porá calça e camisa velhas, botas, blusão de couro. Preparará rapidamente uma mochila, não esquecendo os livros: “Judeus sem dinheiro”, de Michael Gold, “O caminho da liberdade”, de Howard Fast; as obras de Maiakovski e Walt Whitman; seu álbum de desenhos; o “Canto a Birobidjan”, de José Goldman. Irá ao quarto dos filhos; murmurará, beijando-os na testa: “Adeus, Spartacus. Adeus, Rosa de Luxemburgo”. Abrirá a porta, contemplará um instante as casas da Felipe Camarão, encherá os pulmões com o ar fresco da madrugada e então iniciará a marcha.

(SCLIAR, 1973, p. 55).

                Também lia contos de Isaac Babel. Isaac Babel, de Odessa, era filho de um comerciante judeu. Após a revolução russa foi comissário político na cavalaria de Budieni. Escreveu contos sobre suas vivências de guerra. Mais tarde foi preso e enviado para um campo de concentração, onde morreu em 1941. Em 1942 o Capitão Birobidjan não sabia disto; ninguém sabia.

 (SCLIAR, 1973, p. 61).

                Por sua vez, Paulo, protagonista de Os voluntários e dono de um modesto bar em uma conhecida zona proletária de Porto Alegre, passa o tempo narrando seu passado aos fregueses, especialmente a aventura vivida anos antes, quando tentou levar Benjamin, amigo de longa data e agora moribundo, para Jerusalém, a fim de realizar o velho sonho do companheiro. Suas recordações conduzem-no de volta à infância e às leituras feitas por recomendação do pai, um emigrante português:

                Foi ele quem me introduziu a Herculano, por exemplo. É verdade que depois preferi os livros da Coleção Terramarear, A ilha do tesouro sendo o meu predileto; mas não foi por falta de incentivo de meu pai. Eu ainda pequeno, ele me declamava (como outros contam histórias infantis) Camões:Sôbolos rios que vão/Por Babilônia me achei... Realmente culto, papai. Apreciava ainda o bom teatro; não era rico, nunca fomos ricos, ao contrário, mas sempre que havia espetáculos no Coliseu ou no São Pedro, lá estava ele, nas galerias, cujos lugares custavam mais barato. Sozinho: mamãe não gostava dessas coisas.

(SCLIAR, 1979, p. 19).

                Nem todos os protagonistas dos romances e novelas de Moacyr Scliar são leitores dessa natureza, profundamente mergulhados na literatura. Encontram-se ali comerciantes e profissionais liberais, prostitutas e políticos, domésticas e banqueiros para quem a leitura não provoca envolvimento maior. No entanto, os tipos descritos, entre os quais se acham, por paradoxal que pareça, muitos comerciantes, mas nenhum intelectual, apenas um sapateiro mais culto que outros de sua profissão, formam efetivamente um grupo com identidade própria. Pelo fato de se mostrarem leitores vorazes e apreciarem sua atividade; e também por serem todos homens que querem mudar o mundo, vale dizer, revolucionários, idealistas, batalhadores.
                Mayer Guinzburg e o sapateiro Nicola são os mais comprometidos com o socialismo; Max não tem partido político, mas combate destemidamente a opressão. Da sua parte, o idealismo de Paulo se revela, ao lançar-se, desconsiderando os perigos e as consequências, a uma aventura quixotesca e sem chance de sucesso apenas para satisfazer a última vontade do amigo moribundo. E se Guedali busca determina-damente acomodar-se ao sistema, agindo, pois, na dire-ção contrária a dos companheiros, cumpre lembrar que ele é o mais marginalizado de todos. Também no seu caso, o empenho procede de um ser alheio ao meio dominante, sua luta traduzindo não o desejo de conservar, mas o de se transformar para ser aceito.
                Coincidência ou não, leitura e tentativa de mudança caminham juntas na obra de Moacyr Scliar. Não há leitores confortavelmente acomodados ao estabelecido, não há revolucionários que não tenham sido e permaneçam homens de livros. Por sua vez, nem todos esses idealistas se assemelham, nem sua atividade toma sempre a mesma direção. Se os socialistas tentam pôr em prática suas ideias, os comerciantes, como Paulo e Guedali, convertemse em contadores de histórias.
                Paulo verbaliza sua experiência cada vez que encontra alguém disposto a ouvi-lo, provavelmente elaborando tantas vezes a aventura vivida, que ela acaba por aportar na ficção. Essa passagem é mais evidente em O centauro no jardim, pois aos ouvintes dos pensamentos interiores de Guedali resta a dúvida se seu passado de centauro existiu mesmo ou se ele não inventou tudo, como forma de compensar as mutilações a que se sujeitou. Assim, a fantasia vem a ser a alternativa escolhida por esses homens que tiveram a infância preenchida por livros; e assume uma função básica: permite conservar a integridade dos ideais, mesmo quando a necessidade de acomodação impõe-se, e eles terminam por se conformar à mediocridade de suas existências.
                Em certo sentido, o grupo de leitores aqui reunido, ainda que heterogêneo, compartilha um conflito comum. Motivados por ideais generosos, esses homens desejam mudar o mundo; mas são constantemente solicitados a se submeter ao modo de ser da sociedade. Precisam lutar pela própria sobrevivência, e esta só se faz pela concordância com as regras do jogo. Este gesto, todavia, não doma a rebeldia interior deles, que se manifesta seja de maneira agressiva – pela retomada da luta política ou pela reação ostensiva à opressão –, seja de maneira pacífica – pela narrativa de histórias.
                A atitude referida por último reabre o ciclo; não tendo condições de concretizar imediatamente seus ideais, os narradores passam-nos aos outros, aos seus ouvintes e, portanto, a nós, os leitores, que um dia talvez possamos transformar em realidade o sonho que moveu o contador das histórias. Eis por que, em um caso e no outro, persiste, na obra de Moacyr Scliar, uma visão iluminista da leitura, provavelmente a mesma que trouxe da infância, resultado de sua trajetória pessoal. A leitura é, para ele, eminentemente emancipadora, porque leva as pessoas a romperem com os limites estreitos da vida cotidiana; e se o indivíduo nem sempre tem meios de efetivar o sonho trazido dos livros, ele pode se converter no seu portador, naquele que, simplesmente por contar como é, propõe novos caminhos, pois revela e amplia as fronteiras da realidade.
                Sob este aspecto, o livro é concebido como possibilidade de transformação de um sujeito e, por extensão, da sociedade. E a fantasia, ponto de partida e resultado da ficção, encarada como parte desse processo revolucionário, e não condenada como escapista ou compensatória. A essas concepções pertence igualmente a interpretação dada à sua dupla atividade, a de escritor e de leitor: o primeiro nasceu do segundo e é também seu herdeiro, pois foi por ter incorporado o ideal da leitura que pôde transportá-lo às obras.
                O criador foi povoado pelos entes fictícios que conheceu pelos livros; e estes não só estimularam sua imaginação; legaram-lhe um modo original de ver o mundo, modo este de que os protagonistas comprometidos com a instalação de uma sociedade mais justa se tornam portadores. Por sua vez, o escritor espera do leitor posicionamento similar, porque o assumir dessa coincide com a concretização plena de seu ideal de literatura e de humanidade.
                É por privilegiar o imaginário e suas representações, como o sonho e o ideal, que Moacyr Scliar reconhece dar vazão à natureza participante da literatura. Porém, aqueles só podem se manifestar, se motivados pelo livro e a leitura. Por isso, nesses radicam tanto o processo de criação literária, como o de transformação do mundo, ali localizando-se o ponto de partida de uma ação orientada para a substituição da situação vigente. Sem dúvida, essas expectativas apresentam um componente utópico; mas não ilusório e enganador, pois todo o esforço de mudança contém necessariamente elementos oníricos, que tanto tradu-zem uma insatisfação com o presente, quanto o desejo de alterar o que não convém. Na literatura, os dois lados da questão se fazem notar de modo mais evidente, a ficção exprimindo sempre os anseios de modificação, ainda quando esses tomem a forma impalpável da fantasia.



 
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