
Obra: Eu vos abraço, milhões
Autor: Moacyr Scliar
Gênero: Romance
1.
Dados do Autor
Moacyr Jaime Scliar
nasceu em Porto Alegre (RS), no Bom Fim, bairro que até hoje reúne a comunidade
judaica, a 23 de março de 1937, filho de José e Sara Scliar. Sua mãe,
professora primária, foi quem o alfabetizou. Cursou, a partir de 1943, a Escola
de Educação e Cultura, daquela cidade, conhecida como Colégio Iídiche.
Transferiu-se, em 1948, para o Colégio Rosário, uma escola católica.
Em 1955, passou a
cursar a faculdade de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em
Porto Alegre (RS), onde se formou em 1962. Em 1963, inicia sua vida como
médico, fazendo residência em clínica médica. Trabalhou junto ao Serviço de
Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU), daquela capital.
Publica seu primeiro
livro, “Histórias de um Médico em Formação”, em 1962. A partir daí, não parou
mais. São mais de 67 livros abrangendo o romance, a crônica, o conto, a
literatura infantil, o ensaio, pelos quais recebeu inúmeros prêmios literários.
Sua obra é marcada pelo flerte com o imaginário fantástico e pela investigação
da tradição judaico-cristã. Algumas delas foram publicadas na Inglaterra,
Rússia, República Tche-ca, Eslováquia, Suécia, Noruega, França, Alemanha,
Israel, Estados Unidos, Holanda e Espanha e em Portugal, entre outros países.
Em 1965, casa-se com
Judith Vivien Oliven. Em 1968, publica o livro de contos "O Carnaval dos
Animais", que o autor considera de fato sua primeira obra. Especializa-se
no campo da saúde pública como médico sanitarista. Inicia os trabalhos nessa
área em 1969. Em 1970, freqüenta curso de pós-graduação em medicina em Israel,
sendo aprovado. Posteriormente, torna-se doutor em Ciências pela Escola Nacional
de Saúde Pública.
Seu filho, Roberto,
nasce em 1979. A convite, torna-se professor visitante na Brown University
(Departament of Portuguese and Brazilian Studies), em 1993, e na Universidade
do Texas, em Austin. Colabora com diversos dos principais meios de comunicação
da mídia impressa (Folha de São Paulo e Zero Hora). Alguns de seus textos foram
adaptados para o cinema, teatro e tevê.
Nos anos de 1993 e
1997, vai aos EUA como professor visitante no Departamento de Estudos
Portugueses e Brasileiros da Brown University. Em 31 de julho de 2003 foi
eleito, por 35 dos 36 acadêmicos com direito a voto, para a Academia Brasileira
de Letras, na cadeira nº 31, ocupada até março de 2003 por Geraldo França de
Lima. Tomou posse em 22 de outubro daquele ano, sendo recebido pelo poeta
gaúcho Carlos Nejar. O escritor faleceu no dia 27/02/2011, em Porto Alegre
(RS), vítima de falência múltipla de órgãos.
2.
Contexto Histórico
Certamente, o que
mais se destaca ao longo de todo o enredo da obra de Moacyr Scliar são os diversos
fatos históricos pelo narrador-personagem narrados ou citados, que vão desde o
período do Coronelismo e da República Velha, conforme se nota ao princípio da
obra, passando pela Revolução Russa, início da Era Vargas até a história
brasileira mais recente, tudo sob a ótica militante e engajada do movimento
Comunista e Anarquista no país.
O período que vai de
1889 a 1930 é conhecido como a República Velha. Este período da História do
Brasil é marcado pelo domínio político das elites agrárias mineiras, paulistas
e cariocas. O Brasil firmou-se como um país exportador de café, e a indústria
deu um significativo salto. Na área social, várias revoltas e problemas sociais
aconteceram nos quatro cantos do território brasileiro.
O período que vai de
1894 a 1930 foi marcado pelo governo de presidentes civis, ligados ao setor
agrário. Estes políticos saiam dos seguintes partidos: Partido Republicano
Paulista (PRP) e Partido Republicano Mineiro (PRM). Estes dois partidos
controlavam as eleições, mantendo-se no poder de maneira alternada. Contavam
com o apoio da elite agrária do país.
Dominando o poder,
estes presidentes implementaram políticas que beneficiaram o setor agrário do
país, principalmente, os fazendeiros de café do oeste paulista. Surgiu neste
período o tenentismo, que foi um movimento de caráter político-militar,
liderado por tenentes, que faziam oposição ao governo oligárquico. Defendiam a
moralidade política e mudanças no sistema eleitoral (implantação do voto
secreto) e transformações no ensino público do país. A Coluna Prestes e a
Revolta dos 18 do Forte de Copacabana foram dois exemplos do movimento
tenentista.
A maioria dos
presidentes desta época eram políticos de Minas Gerais e São Paulo. Estes dois
estados eram os mais ricos da nação e, por isso, dominavam o cenário político
da república. Saídos das elites mineiras e paulistas, os presidentes acabavam
favorecendo sempre o setor agrícola, principalmente do café (paulista) e do
leite (mineiro). A política do café-com-leite sofreu duras críticas de
empresários ligados à indústria, que estava em expansão neste período.
Se por um lado a
política do café-com-leite privilegiou e favoreceu o crescimento da agricultura
e da pecuária na região Sudeste, por outro, acabou provocando um abandono das
outras regiões do país. As regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste ganharam
pouca atenção destes políticos e tiveram seus problemas sociais agravados.
A figura do
"coronel" era muito comum durante os anos iniciais da República,
principalmente nas regiões do interior do Brasil. O coronel era um grande
fazendeiro que utilizava seu poder econômico para garantir a eleição dos
candidatos que apoiava. Era usado o voto de cabresto, em que o coronel
(fazendeiro) obrigava e usava até mesmo a violência para que os eleitores de
seu "curral eleitoral" votassem nos candidatos apoiados por ele. Como
o voto era aberto, os eleitores eram pressionados e fiscalizados por capangas
do coronel, para que votasse nos candidatos indicados. O coronel também
utilizava outros "recursos" para conseguir seus objetivos políticos,
tais como: compra de votos, votos fantasmas, troca de favores, fraudes
eleitorais e violência.
Ao mesmo tempo,
ocorria na Europa a Revolução Russa, que seria o início de muitos dos conflitos
que se dariam dali por diante em todo o mundo. No começo do século XX, a Rússia
era um país de economia atrasada e dependente da agricultura, pois 80% de sua
economia estava concentrada no campo (produção de gêneros agrícolas).
Os trabalhadores
rurais viviam em extrema miséria e pobreza, pagando altos impostos para manter
a base do sistema czarista de Nicolau II. O czar governava a Rússia de forma
absolutista, ou seja, concentrava poderes em suas mãos não abrindo espaço para
a democracia. Mesmo os trabalhadores urbanos, que desfrutavam os poucos
empregos da fraca indústria russa, viviam descontentes com o governo do czar.
No ano de 1905,
Nicolau II mostra a cara violenta e repressiva de seu governo. No conhecido
Domingo Sangrento, manda seu exército fuzilar milhares de manifestantes.
Marinheiros do encouraçado Potenkim também foram reprimidos pelo czar. Começava
então a formação dos sovietes (organização de trabalhadores russos) sob a
liderança de Lênin. Os bolcheviques começavam a preparar a revolução socialista
na Rússia e a queda da monarquia.
Faltava alimentos na
Rússia czarista, empregos para os trabalhadores, salários dignos e democracia.
Mesmo assim, Nicolau II jogou a Rússia numa guerra mundial. Os gastos com a
guerra e os prejuízos fizeram aumentar ainda mais a insatisfação popular com o
czar. Greves de trabalhadores urbanos e
rurais espalham-se pelo território russo. Ocorriam muitas vezes motins dentro
do próprio exército russo. As manifestações populares pediam democracia, mais
empregos, melhores salários e o fim da monarquia czarista. Em 1917, o governo
de Nicolau II foi retirado do poder e assumiria Kerenski (menchevique) como
governo provisório.
Com Kerenski no
poder pouca coisa havia mudado na Rússia. Os bolcheviques, liderados por Lênin,
organizaram uma nova revolução que ocorreu em outubro de 1917. Prometendo paz,
terra, pão, liberdade e trabalho, Lênin assumiu o governo da Rússia e implantou
o socialismo. As terras foram redistribuídas para os trabalhadores do campo, os
bancos foram nacionalizados e as fábricas passaram para as mãos dos
trabalhadores. Lênin também retirou seu país da Primeira Guerra Mundial no ano
de 1918. Foi instalado o partido único: o PC (Partido Comunista).
Após a revolução,
foi implantada a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Seguiu-se
um período de grande crescimento econômico, principal-mente após a NEP (Nova
Política Econômica). A URSS tornou-se uma grande potência econômica e militar.
Mais tarde rivalizaria com os Estados Unidos na chamada Guerra Fria. Porém,
após a revolução a situação da população geral e dos trabalhadores pouco mudou
no que diz respeito à democracia. O Partido Comunista reprimia qualquer
manifestação considerada contrária aos princípios socialistas. A falta de
democracia imperava na URSS.
Em 1930 o então presidente
da república era Washington Luís, pertencente à elite cafeeira de São Paulo.
Assim, com as eleições, o próximo presidente a ser eleito seria um candidato
provindo de Minas Gerais. Entretanto, Washington Luís rompe a aliança com o
partido mineiro e apoia a candidatura do então paulista Júlio Prestes, devido a
desentendimentos de caráter pessoal com o candidato que o partido de Minas
Gerais havia escolhido para sucede-lo, o
que gera tensão entre os participantes da política do “café-com-leite”. Estes
últimos por sua vez se aliam ao Rio Grande do Sul e à Paraíba, lançando Getúlio
Vargas como presidente e João Pessoa como seu vice. Era o fim da República do
Café com Leite.
Insatisfeitos com
tal medida, um grupo de oligarquias dissidentes – principalmente de Minas
Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba – criaram uma chapa eleitoral contra a
candidatura de Júlio Prestes. Conhecida como Aliança Liberal, a chapa
encabeçada pelo fazendeiro gaúcho Getúlio Dorneles Vargas prometia um conjunto
de medidas reformistas. Entre outros pontos, os liberais defendiam a
instituição do voto secreto, o estabelecimento de uma legislação trabalhista e
o desenvolvimento da indústria nacional.
Sob um clima de
desconfiança e tensão, o candidato Júlio Prestes foi considerado vencedor das
eleições daquele ano. Mesmo com a derrota dos liberais, um possível golpe
armado ainda era cogitado. Com o assassinato do liberal João Pessoa, em 26 de
julho de 1930, o movimento oposicionista articulou a derrubada do governo
oligárquico com o auxílio de setores militares.
Depois de controlar
os focos de resistência nos estados, Getúlio Vargas e seus aliados chegam ao
Rio de Janeiro, em novembro de 1930. Iniciando a chamada Era Vargas, Getúlio
ficaria por quinze anos ininterruptos no poder (1930 – 1945) e, logo depois,
seria eleito pelo voto popular voltando à presidência entre os anos de 1951 e
1954.
No contexto
econômico internacional destaca-se a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque
em 1929 e consequentemente a crise que assombrou o mundo capitalista, assim
como seu modelo econômico liberal. O Brasil neste período ainda era agrário, e
tinha como principal produto de exportação o café que também entrou em uma
profunda crise, assolando a economia do país que aumentou o saldo de sua dívida
externa. Essa crise econômica sem precedentes foi suficiente para levar à
ascensão de movimentos brasileiros como o Anarquismo e o Comunismo.
Em 25 de março de
1922, era fundado, em Niterói, no Rio de Janeiro, o Partido Comunista
Brasileiro. O pequeno grupo de nove delegados – sobretudo operários e artesões
–, representando pouco mais de 70 militantes, de diversas regiões do Brasil,
dimensionavam os limites orgânicos do movimento nascente. A ideologia
anarco-sindicalista e a escassa formação marxista dos novos comunistas
demarcavam igualmente a fragilidade política do movimento em formação.
Entretanto,
foi enorme o sentido simbólico daquela reunião. Sob o impulso da Revolução de
1917, pela primeira vez em uma nação ainda essencialmente rural e profundamente
federalista, os trabalhadores expressavam em forma clara e explícita a vontade
de organizar-se em partido para a luta pela construção de uma sociedade
nacional e internacional sem explorados e exploradores.
O anarquismo no
Brasil ganhou força com a grande imigração de trabalhadores europeus entre fins
do século XIX e início do século XX. Em 1889 Giovani Rossi tentou fundar em
Palmeira, no interior do Paraná, uma comunidade baseada no trabalho, na vida e
na negação do reconhecimento civil e religioso do matrimônio, (o que não
significa, necessariamente, "amor livre"), denominada Colônia
Cecília. A experiência teve curta duração.
No início do século
XX, o anarquismo e o anarco-sindicalismo eram tendências majoritárias entre o
operariado, culminando com as grandes greves operárias de 1917, em São Paulo,
e1918-1919, no Rio de Janeiro. Durante o mesmo período, escolas modernas foram
abertas em várias cidades brasileiras, muitas delas a partir da iniciativa de
sindicatos e agremiações operárias anarquistas ou de inclinação anarquista. As
Escolas Modernas aplicavam uma pedagogia libertária, inspirada no pensamento de
Francisco Ferrer, e foram reprimidas a partir dos anos 20, sendo fechadas no
estado de São Paulo. Mesmo após o declínio do movimento anarquista no Brasil, o
Anarquismo e a Pedagogia Libertária se refletiram posteriormente no pensamento
dos maiores pedagogos brasileiros, como Paulo Freire com sua Pedagogia
Libertadora, que busca a consciência de classe e a autonomia do indivíduo.
3. Enredo
No final dos anos 20, Valdo é um
jovem do interior do Rio Grande do Sul que vive com os pais numa estância.
Depois de conhecer Geninho, influencia-se pelas ideias do amigo, que empresta
para ele livros comunistas. Vendo seu pai sendo ofendido pelo patrão, o coronel
Nicácio - o latifundiário agredindo o trabalhador - toma consciência de que
deveria fazer algo. Resolve entrar para o Partido, mas antes precisa ir ao Rio
de janeiro receber ensinamentos do maior líder comunista naquele momento,
Astrojildo Pereira, um dos tantos personagens que realmente existiram e que
permeiam a narrativa.
Na Capital Federal, enquanto
espera uma oportunidade para conhecer o líder que está fora do país, trabalha
na construção do Cristo Redentor, o que vai de encontro ao seu ateísmo. Percebe
também que as ideias comunistas serão difíceis de serem realizadas com uma
população tão alienada pela religião, o ópio do povo segundo Marx. Devido a
conflitos dentro do próprio Partido e por uma posição mais pragmática de vida,
Valdo aos poucos vai se distanciando de seus ideais, mas o espectro volta a
assombrá-lo nos anos 60, com o filho seguindo o caminho que o pai deixou de
trilhar.
A história é contada por Valdo
através de uma longa carta ao seu neto, que está nos EUA. Em outros livros,
Scliar usou recurso parecido, como em Pra você eu conto, livro
infanto-juvenil que narra uma história também sobre a utopia comunista. Outros
temas recorrentes do escritor estão presentes, como a medicina e o judaísmo. Da
mesma forma, o estilo inconfundível do autor é notório, com suas frases curtas
e repletas de vocativos, apostos e inversões sintáticas, um atrativo para quem
o lê pela primeira vez.
Apesar das referências a
questões políticas e econômicas, como a quebra da Bolsa de Nova Iorque e a
revolução de 30 que levou Getúlio Vargas ao poder, o romance aborda muito mais
a fé, seja na religião ou em um partido político (as reuniões do Partido
Comunista pareciam atos religiosos, com juramentos e confissões). Cada pessoa
que segue um ou outro acaba perdendo sua individualidade, tornando-se apenas
uma massa sem rosto no meio de milhões.
4.
Ambiente
O ambiente da obra
“Eu vos abraço, Milhões” alterna-se ao longo de todo enredo, apresentando ao
leitor ações e aspectos que, hora marcam o ambiente como saudável e positivo, e
hora marcam o mesmo como doentio e decadente.
Essa dualidade já é
notada desde o princípio, onde temos o protagonista vivendo em meio a uma
humilde família, sujeita aos mandos e desmandos do coronel, para qual o pai de
Valdo trabalhava, o que se deve ao poder e influência exercidos pelos coronéis
no contexto histórico da época, conforme supracitado. Ao mesmo tempo,
contrapõe-se a isso a amizade entre Valdo e Geninho, unida por conta de laços
ideológicos e pela própria condição social de ambos os personagens. Também é
relacionada a essa vertente do ambiente da obra a busca de Valdo em nome da
revolução em busca de Astrojildo Pereira.
Outros aspectos que
podem caracterizar essa dualidade é a sexualidade. Tratada de modo realista e
objetivo pelo autor, ao mesmo tempo que consagra sentimentos de amor, notado
quando o jovem conhece Chica à caminho do Rio de Janeiro, é utilizado como mera forma de prazer, sendo
tratado de forma exdrúxula, conforme se confirma quando Valdo se relaciona com
a dona da pensão aonde se hospeda.
Porém, o aspecto que
provavelmente mais leva a um ambiente negativo a perda da ideologia comunista e
a favor da busca de mudanças e transformações por parte do protagonista.
5.
Crítica
Ao longo da análise
da obra em estudo, notam-se a presença de teorias científico-filosóficas. O
Epicurismo se faz notar em alguns momentos. A valorização da vida terrena, dos
prazeres materiais, e atualmente, do consumismo, característica marcante do
capitalismo, sistema ao qual Valdo a princípio se matinha contra.
Ainda, temos como
predominante o Marxismo, que inspira todas as ações que norteiam o enredo; Tal
teoria interpreta a vida social conforme a dinâmica da base produtiva das
sociedades e das lutas de classes daí conseqüentes. O marxismo compreende o
homem como um ser social histórico e que possui a capacidade de trabalhar e
desenvolver a produtividade do trabalho, o que diferencia os homens dos outros
animais e possibilita o progresso de sua emancipação da escassez da natureza, o
que proporciona o desenvolvimento das potencialidades humanas. A luta comunista
se resume à emancipação do proletariado por meio da liberação da classe
operária, para que os trabalhadores da cidade e do campo, em aliança política,
rompam na raiz a propriedade privada burguesa, transformando a base produtiva
no sentido da socialização dos meios de produção, para a realização do trabalho
livremente associado - o comunismo -, abolindo as classes sociais existentes e
orientando a produção - sob controle social dos próprios produtores - de acordo
com os interesses humano-naturais.
Paralelamente, da
mesma forma as ações de Valdo podem ser justificadas através do Determinismo de
Taine. Sendo as ações e princípios humanos definidos através do momento
histórico e do meio, temos um contexto histórico favorável à militância e engajamento
dos jovens em busca de transformações, da mesma forma que um meio humilde o
faz. Assim, sob essa ótica podem ser justificadas por esses dois aspectos a
rumo tomado pelo protagonista ao longo da narrativa.
A obra de Moacyr
apresenta citações de arquétipos bíblicos em determinados momentos, conforme se
nota na página 12: “ [...] de criar um novo dilúvio, não destruidor como aquele
a que só Noé, sua família e seus bichos sobreviveram; não, um dilúvio cálido,
amável, um dilúvio em que todos pudessem navegar, [...]”. Tendo também
influências de outros autores como Euclides da Cunha pertencente ao Pré-
Modernismo e sua obra “Os Sertões” que menciona a história de Canudos.
“Eu voa abraço, Milhões” é uma produção que
mescla fatos verossímeis e fatos históricos ao romance ficcional. A linguagem da obra pertence à norma padrão
culta, mesclando, porém, marcas de oralidades, sempre a serviço dos objetivos a
serem cumpridos pelo autor com a obra.
6.
Capa
A criação do experiente Victor
Burton, a capa de Eu vos abraço, milhões (Companhia das Letras, 256
páginas), do romance do não menos experiente Moacyr Scliar, serviu
de ponto de partida para a compreensão da história. Num primeiro momento, a
ilustração de um trabalhador com os braços cruzados estampa uma manchete de um
jornal comunista. Outra ilustração traz a estátua do Cristo Redentor em
construção, já com os “braços abertos sobre a Guanabara”. Por último, e com
maior destaque, soldados sobre um caminhão são recebidos pelo povo com os
braços abertos, da mesma forma que o Cristo. Política, religião e as massas são
os eixos temáticos do romance, e por aí segui minha leitura.
7.
O título
O título vem de um verso do
poeta Friedrich Schiller, Ode à alegria, presente na Nona Sinfonia
de Beethoven, uma das obras máximas do Romantismo alemão. O Romantismo foi um
período cultural que tinha como características a individualidade e o
idealismo. Curiosamente, apesar do pronome pessoal “eu”, o verso de Schiller é
usado sob uma perspectiva comunista, ligada ao coletivo que minimiza o
indivíduo. Aliás, algumas traduções do poema optam por “abracem-se” em vez de
“eu vos abraço”, o que combinaria melhor com o comunismo. Também é uma
referência à religiosidade, representada pela pose do Cristo Redentor. “Abraçar
os milhões de seres humanos que compunham as massas, esse deveria ser nosso
ideal”, diz um dos personagens do romance.
8.
Análise Comparada
A primeira obra de Moacyr
Scliar, Histórias de um médico em
formação, foi publicada em 1962, o último, Eu vos abraço, milhões, em 2010. No decorrer de quase cinquenta
anos, o escritor construiu uma obra sólida, conhecida e prestigiada nacional e
internacionalmente. Dessa constam romances, contos, novelas, crônicas e
ensaios, publicados no Brasil e no exterior, antologias próprias e presença em
coletâneas coletivas, traduções e textos para crianças.
Tal participação na literatura
confere a essa obra características próprias, configurando-a enquanto um
universo autônomo e auto-suficiente. Por isso, puderam ser identificados nela
seus traços mais marcantes: a narração da trajetória da imigração judaica da
Europa para o Brasil, com suas consequências mais diretas, tais como a
instalação desse contingente de pessoas no país, especialmente no Rio Grande do
Sul, as dificuldades de adaptação, a preocupação com a educação dos filhos, o
sucesso profissional desses, os problemas pessoais decorrentes da integração ao
novo modo de vida, sendo essa a matéria de romances como:
·
A guerra do Bom Fim (1982),
·
O exército de um homem só (1973),
·
Os deuses de Raquel (1975),
·
O ciclo das águas (1977),
·
O centauro no jardim (1980),
·
A estranha nação de Rafael Mendes (1983),
·
Cenas da vida minúscula (1991),
·
A Majestade do Xingu (1997).
A partir desse tema central,
Scliar permite-se a representação do Brasil moderno, cujos retratos e
complexidade transparecem por intermédio do percurso existencial das
personagens que criou. Essas se integram ao processo de formação da burguesia
nacional, que é também o de urbanização e modernização do país, e experimentam
os efeitos das mudanças: dilaceram-se entre amoldar-se docilmente ao sistema,
com frequência abdicando de suas tradições, assimilando-se, portanto, como se
verifica em O centauro no jardim ou
Cenas da vida minúscula; ou reagir a esses apelos, postando-se criticamente
diante deles, o que pode significar tanto a retomada dos laços com o judaísmo,
quanto a tentativa de modificar a sociedade, quando não expressa o esforço em
associar essas duas atitudes, de algum modo transformadoras, de que é exemplo o
Capitão Birobidjan, protagonista de O
exército de um homem só.
A análise dos componentes sociais encontráveis na obra de Scliar
volta-se seguidamente à exposição dos tópicos antes resumidos. Sem rejeitá-los,
seria o caso, entretanto, de orientar a visão para outro campo, que, se não é
divergente, associa o escritor de outra maneira a um tema que tem igualmente
ligações com o mundo judaico – o culto do livro, de que é sinal a celebração de
datas como a que comemora Simchat Torah, período em que recomeça a leitura dos
cinco livros de Moisés. Com este propósito, procura-se doravante chamar a
atenção para a forma como, nos romances, o livro e a leitura são elaborados na
condição de experiência, examinada antes desde a perspectiva particular do
autor, a seguir desde o ponto de vista das personagens.
O tema se apresenta desde os
escritos iniciais de Scliar. No entanto, procurando privilegiar a trajetória
pessoal do ficcionista, transcrevem-se suas lembranças das primeiras leituras,
que, se ocorreram na infância por estímulo da família, foram narradas nas suas “Memórias
de um aprendiz de escritor”:
Cresci ouvindo histórias. Porque tinham histórias a contar, eles: meus
pais, meus tios, nossos vizinhos. Eram, na maioria, emigrantes. Da Rússia. Lá
tinham vivido, como seus antepassados, em pequenas aldeias, em meio a uma
lírica miséria, lendo a Bíblia, praticando a religião, e trabalhando como
artesãos e pequenos comerciantes.
Contar histórias.
Eis uma coisa que meus pais sabiam fazer particularmente bem, com graça e
humor; sabiam transformar pessoas em personagens, acontecimentos em situações
ou cenas. De minha mãe adquiri o gosto pela leitura. Éramos pobres; não
indigentes; não chegávamos a passar fome; mas tínhamos de economizar. Apesar
disto nunca me faltou dinheiro para livros. Minha mãe me levava à tradicional
Livraria do Globo e eu podia escolher à vontade. Desde pequeno estava lendo. De
tudo, como até hoje: Monteiro Lobato e revistas em quadrinhos, divulgação
científica e romances. Mesmo os impróprios para menores. Minha mãe tinha Saga,
de Erico Veríssimo, escondido em seu roupeiro; naquela época, Erico era
considerado um autor imoral. Falava em (horror!) sexo. Mas eu logo descobri
onde estava à chave, e quando minha mãe saía, mergulhava na leitura proibida.
Monteiro Lobato
era meu autor preferido. Mas eu também lia o “Tesouro da Juventude”, uma enciclopédia
infanto-juvenil em dezoito volumes. Curioso, eu queria saber tudo: por que
chove? Quem depois de morta foi rainha? Lia, lia. Deitado num sofá, o livro
servindo como barreira entre eu e o mundo. Isto: o livro é uma barreira; mas é
também a porta. A porta para um mundo imaginário, onde eu vivia grande parte do
meu tempo.
Interrompo a
tarefa de escrever estas linhas, levanto-me, vou até a prateleira onde estão os
meus livros infantis. São infantis, mas não os de minha infância: estes
sumiram. Aos poucos, num sebo e em outro, fui refazendo parte de minha
biblioteca de então: Rute e Alberto, de Cecília Meireles; Os nenês d’água, de
Charles Kingsley; Alice no país das maravilhas; As aventuras de Tibicuera, de
Erico Veríssimo; Histórias de um quebra-nozes, de Alexandre Dumas; Robin Hood,
Tarzan, livros sobre piratas... Apanho um volume: é a trigésima edição de
Cazuza, de Viriato Correa, obra concluída pelo autor justamente no ano em que
nasci – 1937. Folheio-a com a mesma sensação que tive pela primeira vez, a de
descobrir um Brasil que eu não conhecia, o Brasil do Maranhão, o Brasil do Pata
Choca, do Padre Zacarias, de Luiz Gama. O Brasil do professor João Câncio
dizendo – numa época em que o ufanismo era a tônica: “Somos um país pobre, um
povo pobre... Mas justamente porque a terra não é mais doce, nem a mais
generosa, nem a mais rica é que é maior o valor de nossa gente”. Humildes
livros, bravos livros.
(SCLIAR,
1984, p. 22-24).
O trecho em que o Autor recorda
esse período da infância foi publicado em um livro dirigido às crianças. A
circunstância é sugestiva da relação que Scliar pretende estabelecer com seus
leitores: dá a entender que, agora adulto, deseja repetir, com os jovens que o
lêem, uma experiência imitada dos pais e de efeitos positivos. Contando seu
passado e transformando-o em matéria de leitura, espera ver reproduzido o
processo que vivenciou, por intermédio do qual teve seu gosto despertado para a
literatura, sentiu-se reintegrado à tradição de onde proveio e sensibilizou-o
para os problemas de seu tempo e espaço.
O trecho não apenas ilustra
experiências iniciais dignas de serem multiplicadas; traduz ainda o modo como o
escritor compreende a leitura: julga-a uma forma de conhecimento, transmitindo
informações que satisfazem curiosidades e, ao mesmo tempo, posicionam o
indivíduo na sua época e local. Assim, por um lado, o livro é um elemento da
rotina doméstica e parte da família, pois amplia e solidifica a função dessa,
ao possibilitar ao leitor entender seu lugar na tradição e no presente. De
outro, é um componente da vida cotidiana, integrando o ser humano à cultura e
dando-lhe a autonomia e a consciência necessárias para encarar a sociedade que
o espera. Os textos lidos assumem então caráter eminentemente agregador, dando
sentido e ordem à existência; por isso, precisam ser transportados da infância
à idade adulta, fato que determina mais um elo: o do ser humano com sua
história pessoal, na qual as obras consumidas desempenharam papel decisivo.
Esses elos acabam por desenhar
um perímetro maior, porque o ficcionista depois repassa-os a alguns de seus
heróis. Em razão disto, cumpre verificar como se comportam as personagens
criadas por Moacyr que são também leitoras. O
exército de um homem só é protagonizado por Mayer Guinzburg, jovem revolucionário
que, com seus amigos, idealiza um mundo novo e mais justo. Os encontros do
grupo, durante os quais se planeja uma sociedade superior, são permeados de
literatura:
1928. Mayer Guinzburg, sua namorada Leia, e seu amigo José Goldman
passeavam à noite no Parque da Redenção. Fazia frio, mas eles não se
importavam; corriam, saltavam, rolavam na grama, riam e cantavam. Leia
declamava os versos de Walt Whitman. (...) Walt Whitman. Depois de 1848, Walt
Whitman preferia conviver com trabalhadores e gente humilde, explicava Leia.
Até então vestira-se como um peralvilho; mas desde esta época usava trajes
rudes. Queria abraçar o povo, beijar o povo, fundir-se nele. Declamando, Leia
tremia de emoção. Era meiga e loira. Morava sozinha com o pai. A mãe os abandonara
quando Leia tinha cinco anos. O pai era doente; quando se incomodava com Leia,
dizia que ela ainda acabaria por matá-lo. Por causa disto, Leia chorava muito.
Depois enxugava as lágrimas, procurava seus amigos e declamava para eles.
(SCLIAR, 1973,
p. 13-14)
Naquele ano Mayer
Guinzburg lia Rosa Luxemburg (1870-1919), que ele chamava carinho-samente
“minha rosa de Luxemburgo”, embora ela não fosse de Luxemburgo e sim da
Polônia. Muito moça, emigrava para a Alemanha, lá casando com um trabalhador.
(...) Rosa de Luxemburgo... Mayer Guinzburg chorava lendo as “Cartas da
Prisão”. Rosa de Luxemburgo; Mayer Guinzburg tinha uma fotografia dela; um
rosto puro e iluminado, parecido ao de Leia. Rosa de Luxemburgo.
(SCLIAR, 1973, p. 25).
1942. Mayer
Guinzburg ainda não tem certeza, mas sabe que acabará por fazê-lo: no trigésimo
sétimo dia de sua doença saltará da cama, livre de toda a fadiga. Se vestirá
silenciosamente, olhando Leia que dorme; porá calça e camisa velhas, botas,
blusão de couro. Preparará rapidamente uma mochila, não esquecendo os livros:
“Judeus sem dinheiro”, de Michael Gold, “O caminho da liberdade”, de Howard
Fast; as obras de Maiakovski e Walt Whitman; seu álbum de desenhos; o “Canto a
Birobidjan”, de José Goldman. Irá ao quarto dos filhos; murmurará, beijando-os
na testa: “Adeus, Spartacus. Adeus, Rosa de Luxemburgo”. Abrirá a porta,
contemplará um instante as casas da Felipe Camarão, encherá os pulmões com o ar
fresco da madrugada e então iniciará a marcha.
(SCLIAR, 1973,
p. 55).
Também lia contos
de Isaac Babel. Isaac Babel, de Odessa, era filho de um comerciante judeu. Após
a revolução russa foi comissário político na cavalaria de Budieni. Escreveu
contos sobre suas vivências de guerra. Mais tarde foi preso e enviado para um
campo de concentração, onde morreu em 1941. Em 1942 o Capitão Birobidjan não
sabia disto; ninguém sabia.
(SCLIAR, 1973, p. 61).
Por sua vez, Paulo, protagonista
de Os voluntários e dono de um modesto bar em uma conhecida zona proletária de Porto
Alegre, passa o tempo narrando seu passado aos fregueses, especialmente a
aventura vivida anos antes, quando tentou levar Benjamin, amigo de longa data e
agora moribundo, para Jerusalém, a fim de realizar o velho sonho do
companheiro. Suas recordações conduzem-no de volta à infância e às leituras
feitas por recomendação do pai, um emigrante português:
Foi ele quem me
introduziu a Herculano, por exemplo. É verdade que depois preferi os livros da
Coleção Terramarear, A ilha do tesouro
sendo o meu predileto; mas não foi por falta de incentivo de meu pai. Eu
ainda pequeno, ele me declamava (como outros contam histórias infantis) Camões:Sôbolos rios que vão/Por Babilônia me
achei... Realmente culto, papai. Apreciava ainda o bom teatro; não era
rico, nunca fomos ricos, ao contrário, mas sempre que havia espetáculos no
Coliseu ou no São Pedro, lá estava ele, nas galerias, cujos lugares custavam
mais barato. Sozinho: mamãe não gostava dessas coisas.
(SCLIAR,
1979, p. 19).
Nem todos os protagonistas dos
romances e novelas de Moacyr Scliar são leitores dessa natureza, profundamente
mergulhados na literatura. Encontram-se ali comerciantes e profissionais
liberais, prostitutas e políticos, domésticas e banqueiros para quem a leitura
não provoca envolvimento maior. No entanto, os tipos descritos, entre os quais
se acham, por paradoxal que pareça, muitos comerciantes, mas nenhum
intelectual, apenas um sapateiro mais culto que outros de sua profissão, formam
efetivamente um grupo com identidade própria. Pelo fato de se mostrarem
leitores vorazes e apreciarem sua atividade; e também por serem todos homens
que querem mudar o mundo, vale dizer, revolucionários, idealistas,
batalhadores.
Mayer Guinzburg e o sapateiro
Nicola são os mais comprometidos com o socialismo; Max não tem partido
político, mas combate destemidamente a opressão. Da sua parte, o idealismo de
Paulo se revela, ao lançar-se, desconsiderando os perigos e as consequências, a
uma aventura quixotesca e sem chance de sucesso apenas para satisfazer a última
vontade do amigo moribundo. E se Guedali busca determina-damente acomodar-se ao
sistema, agindo, pois, na dire-ção contrária a dos companheiros, cumpre lembrar
que ele é o mais marginalizado de todos. Também no seu caso, o empenho procede
de um ser alheio ao meio dominante, sua luta traduzindo não o desejo de
conservar, mas o de se transformar para ser aceito.
Coincidência ou não, leitura e
tentativa de mudança caminham juntas na obra de Moacyr Scliar. Não há leitores
confortavelmente acomodados ao estabelecido, não há revolucionários que não
tenham sido e permaneçam homens de livros. Por sua vez, nem todos esses
idealistas se assemelham, nem sua atividade toma sempre a mesma direção. Se os
socialistas tentam pôr em prática suas ideias, os comerciantes, como Paulo e
Guedali, convertemse em contadores de histórias.
Paulo verbaliza sua experiência
cada vez que encontra alguém disposto a ouvi-lo, provavelmente elaborando
tantas vezes a aventura vivida, que ela acaba por aportar na ficção. Essa
passagem é mais evidente em O centauro no jardim, pois aos ouvintes dos
pensamentos interiores de Guedali resta a dúvida se seu passado de centauro
existiu mesmo ou se ele não inventou tudo, como forma de compensar as
mutilações a que se sujeitou. Assim, a fantasia vem a ser a alternativa
escolhida por esses homens que tiveram a infância preenchida por livros; e
assume uma função básica: permite conservar a integridade dos ideais, mesmo
quando a necessidade de acomodação impõe-se, e eles terminam por se conformar à
mediocridade de suas existências.
Em certo sentido, o grupo de
leitores aqui reunido, ainda que heterogêneo, compartilha um conflito comum.
Motivados por ideais generosos, esses homens desejam mudar o mundo; mas são
constantemente solicitados a se submeter ao modo de ser da sociedade. Precisam
lutar pela própria sobrevivência, e esta só se faz pela concordância com as
regras do jogo. Este gesto, todavia, não doma a rebeldia interior deles, que se
manifesta seja de maneira agressiva – pela retomada da luta política ou pela
reação ostensiva à opressão –, seja de maneira pacífica – pela narrativa de
histórias.
A atitude referida por último
reabre o ciclo; não tendo condições de concretizar imediatamente seus ideais,
os narradores passam-nos aos outros, aos seus ouvintes e, portanto, a nós, os
leitores, que um dia talvez possamos transformar em realidade o sonho que moveu
o contador das histórias. Eis por que, em um caso e no outro, persiste, na obra
de Moacyr Scliar, uma visão iluminista da leitura, provavelmente a mesma que
trouxe da infância, resultado de sua trajetória pessoal. A leitura é, para ele,
eminentemente emancipadora, porque leva as pessoas a romperem com os limites
estreitos da vida cotidiana; e se o indivíduo nem sempre tem meios de efetivar
o sonho trazido dos livros, ele pode se converter no seu portador, naquele que,
simplesmente por contar como é, propõe novos caminhos, pois revela e amplia as
fronteiras da realidade.
Sob este aspecto, o livro é
concebido como possibilidade de transformação de um sujeito e, por extensão, da
sociedade. E a fantasia, ponto de partida e resultado da ficção, encarada como
parte desse processo revolucionário, e não condenada como escapista ou
compensatória. A essas concepções pertence igualmente a interpretação dada à sua
dupla atividade, a de escritor e de leitor: o primeiro nasceu do segundo e é
também seu herdeiro, pois foi por ter incorporado o ideal da leitura que pôde
transportá-lo às obras.
O criador foi povoado pelos
entes fictícios que conheceu pelos livros; e estes não só estimularam sua
imaginação; legaram-lhe um modo original de ver o mundo, modo este de que os
protagonistas comprometidos com a instalação de uma sociedade mais justa se
tornam portadores. Por sua vez, o escritor espera do leitor posicionamento
similar, porque o assumir dessa coincide com a concretização plena de seu ideal
de literatura e de humanidade.
É por privilegiar o imaginário e
suas representações, como o sonho e o ideal, que Moacyr Scliar reconhece dar
vazão à natureza participante da literatura. Porém, aqueles só podem se
manifestar, se motivados pelo livro e a leitura. Por isso, nesses radicam tanto
o processo de criação literária, como o de transformação do mundo, ali
localizando-se o ponto de partida de uma ação orientada para a substituição da
situação vigente. Sem dúvida, essas expectativas apresentam um componente
utópico; mas não ilusório e enganador, pois todo o esforço de mudança contém
necessariamente elementos oníricos, que tanto tradu-zem uma insatisfação com o
presente, quanto o desejo de alterar o que não convém. Na literatura, os dois
lados da questão se fazem notar de modo mais evidente, a ficção exprimindo
sempre os anseios de modificação, ainda quando esses tomem a forma impalpável
da fantasia.

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